A decisão da federação União Progressista de ficar neutra na disputa presidencial consolidou no PL a avaliação de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pode iniciar a campanha sem alianças nacionais. Dirigentes da legenda classificam como uma “tragédia” a articulação conduzida pelo senador e por Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, e já trabalham com a hipótese de uma candidatura “avulsa”, sustentada apenas pela estrutura do partido.
O quadro se agravou depois que Ciro Nogueira, presidente do PP, comunicou a Flávio, na quarta-feira (22), que a legenda não apoiará formalmente nenhum candidato à Presidência. O União Brasil deve acompanhar a decisão porque integra a federação com o PP. A conversa era tratada pela campanha como a última tentativa de reverter a neutralidade, e a vaga de vice chegou a ser oferecida à senadora Tereza Cristina (PP-MS), que recusou o convite.
Segundo o Globo, integrantes do PL afirmam que Flávio e Rogério Marinho concentraram esforços na estratégia eleitoral e deixaram em segundo plano a interlocução cotidiana com presidentes de partidos e lideranças do Centrão. A crítica interna é que a campanha não construiu, desde o início, uma rede política capaz de sustentar acordos nacionais.
Um dirigente da legenda disse, sob reserva, que a política se faz “na alegria e na tristeza”, em referência à reação de Flávio quando Ciro Nogueira virou alvo de uma operação da Polícia Federal no caso Master. Na ocasião, o senador divulgou nota em que citou a gravidade das acusações, defendeu apuração “com rigor e transparência” e elogiou o ministro André Mendonça, responsável por autorizar a investigação, sem fazer uma defesa política mais enfática do presidente do PP.
Atritos com o PP e mensagens sobre o Banco Master
Aliados de Ciro interpretaram a postura de Flávio como abandono em um momento de desgaste do dirigente do PP. Uma semana depois, mensagens divulgadas pelo The Intercept Brasil entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, sobre o financiamento do filme “Dark Horse” reforçaram, entre dirigentes da União Progressista, a percepção de que Flávio adotou um discurso duro enquanto mantinha interlocução com Vorcaro.
A comparação interna no PL tem como referência o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Dirigentes avaliam que Lula conseguiu reunir as principais siglas da esquerda — a federação PT, PV e PCdoB, a federação PSOL-Rede e o PSB — enquanto partidos de centro, como União Progressista e MDB, optaram pela neutralidade e deixaram de reforçar formalmente a candidatura de Flávio.
Interlocutores do senador afirmam que Lula venceu de “goleada” a primeira disputa eleitoral, centrada na formação das alianças, e que Flávio larga em desvantagem. Mesmo nesse cenário, o parlamentar deve contar com cerca de 30% do tempo de propaganda eleitoral por estar filiado ao PL, partido com a maior bancada do Congresso.
O Republicanos também aparece cada vez mais distante de uma aliança nacional, embora o PL continue defendendo a indicação da ex-presidente da Caixa Daniella Marques para a vice. O Podemos, que conversou com PL, Novo, PT e PSD, também tende à neutralidade. Daniella se filiou ao Republicanos sem conhecimento prévio do presidente da sigla, Marcos Pereira, e precisou recorrer à Justiça para reconhecer a filiação; como o prazo de troca partidária acabou, dirigentes avaliam que o PL tenta usar a situação para pressionar por uma coligação nacional.




