O governo brasileiro e a Casa Branca deram início às negociações formais para tentar evitar a imposição de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, informa a colunista Mariana Sanches, do portal UOL. A primeira reunião entre representantes dos dois países ocorreu na noite desta terça-feira (19), em formato virtual, e marca o início das tratativas após o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado há menos de duas semanas em Washington.
O representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, confirmou a abertura do diálogo com Márcio Fernando Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do governo Lula.
A reunião ocorre 12 dias depois de Lula e Trump acertarem uma suspensão temporária de 30 dias para uma possível nova rodada de tarifas sobre exportações brasileiras. O Brasil atualmente é alvo de duas investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos com base na chamada Seção 301 do USTR, mecanismo usado pelo governo estadunidense para apurar práticas consideradas desleais no comércio internacional.
As investigações têm previsão de conclusão em julho e aumentaram a pressão sobre as negociações bilaterais.
“Saúdo o engajamento construtivo do Brasil para promover avanços nas questões comerciais e aguardo com expectativa a continuidade das discussões”, afirmou Jamieson Greer em nota divulgada após a reunião.
Greer participou diretamente do encontro entre Lula e Trump na Casa Branca e, segundo relatos de bastidores, teria feito críticas duras à política comercial brasileira durante as conversas.
Equipe econômica entra em campo
Além das tratativas conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, integrantes da equipe econômica brasileira também intensificaram as negociações diplomáticas com os Estados Unidos.
Mais cedo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu em Paris com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent. O encontro ocorreu paralelamente a um evento do G7.
Segundo Durigan, os dois discutiram temas como as tarifas comerciais contra o Brasil, cooperação internacional no combate ao crime organizado, impactos da guerra no Oriente Médio e o mercado de minerais críticos.
O ministro brasileiro afirmou acreditar na possibilidade de construção de um acordo dentro do prazo acertado entre Lula e Trump.
As negociações entre os dois países demoraram quase duas semanas para avançar após o encontro presidencial em Washington. Parte da lentidão ocorreu porque a equipe de Donald Trump acompanhou o republicano em viagem à China, onde ele se reuniu com o presidente Xi Jinping na semana passada.
Lula defendeu criação de grupo de trabalho
A abertura das negociações foi anunciada pelo próprio presidente Lula logo após sua reunião com Trump na Casa Branca.
Durante entrevista coletiva, o presidente relatou detalhes da conversa e afirmou que o republicano voltou a reclamar das tarifas brasileiras sobre produtos estadunidenses.
“Ele [Trump] sempre acha que nós cobramos muito imposto. [Eu disse] ‘Não, porque a média do imposto que nós cobramos de vocês é 2,7%. Apenas 2,7%’. Mas eles continuam a teimar: ‘mas tem produto que é 12%’.”
Lula afirmou que propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para tentar resolver os impasses comerciais em até 30 dias.
“Então, eu falei assim: ‘vamos fazer o seguinte, vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu moço do Comércio, em 30 dias, apresentem para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo. Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder’”, declarou o presidente brasileiro.
Casa Branca evita antecipar desfecho
Também nesta terça-feira, o sub-representante comercial da Casa Branca para o hemisfério ocidental, Jeffrey Goettman, foi questionado sobre a possibilidade de um entendimento comercial mais amplo entre Brasil e Estados Unidos.
Após participação na Conferência das Américas, ele afirmou que os dois países mantêm “um diálogo aberto”, mas evitou antecipar se as negociações resultarão em um acordo capaz de impedir novas tarifas.
Segundo Goettman, a expectativa é que haja uma definição sobre o tema nas próximas semanas.
Empresários pressionam contra novo tarifaço
O ambiente de incerteza em torno das tarifas tem mobilizado empresários brasileiros e estadunidenses, que pressionam a Casa Branca para evitar uma nova escalada comercial contra o Brasil.
Entre os argumentos apresentados ao governo dos EUA está o possível impacto político e econômico da medida, especialmente em um momento de reorganização das cadeias globais de comércio e aumento das tensões internacionais.
A expectativa nos bastidores é que Donald Trump anuncie em julho uma nova versão do chamado “dia da libertação”, programa de tarifas recíprocas lançado anteriormente contra mais de uma centena de países.
No início deste ano, parte dessas medidas acabou derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, que entendeu que Trump extrapolou seus poderes ao justificar juridicamente a guerra tarifária.
Agora, Brasil e Estados Unidos tentam construir uma solução diplomática antes do encerramento das investigações comerciais e de uma possível retomada do endurecimento tarifário.



