A Câmara Municipal do Rio de Janeiro derrubou, na sessão ordinária desta terça-feira (28), o veto da prefeitura ao Projeto de Lei 1283/2025, que reconhece o Projeto NegroMuro como patrimônio cultural de natureza imaterial da cidade. Com a decisão do plenário, o texto segue agora para promulgação do presidente da Casa, Carlo Caiado (PSD).
A proposta é de autoria da vereadora Thais Ferreira (PSOL), integrante da Comissão de Combate ao Racismo da Câmara. O projeto havia sido vetado pelo Executivo sob a justificativa de suposta invasão de competências, mas os vereadores reverteram a decisão durante a votação.
Na justificativa apresentada pela parlamentar, o reconhecimento do NegroMuro reforça a valorização da memória negra no Rio de Janeiro por meio da arte urbana e da ocupação simbólica dos espaços públicos.
Segundo Thais Ferreira, a iniciativa atua na construção de uma narrativa histórica que destaca trajetórias, referências e personalidades negras fundamentais para a formação cultural da cidade.
“O projeto é a construção em curso de um grande circuito de arte a céu aberto com retratos de personagens e seus devidos valores históricos simbolizados em murais espalhados pela cidade”, afirmou a vereadora.
O que é o Projeto NegroMuro
Criado em 2018 pelo pesquisador Pedro Rajão e pelo artista visual Fernando Cazé, o NegroMuro reúne atualmente mais de 70 murais espalhados pelo Rio de Janeiro e Região Metropolitana.
O projeto realiza um amplo trabalho de pesquisa histórica e iconográfica para transformar muros públicos em verdadeiros monumentos da memória negra.
As obras retratam figuras marcantes da cultura, política, esporte e da história brasileira, formando um circuito de arte a céu aberto em diversos pontos estratégicos da capital fluminense.
Diferentemente de intervenções urbanas convencionais, cada mural nasce a partir de um estudo aprofundado sobre a trajetória da personalidade homenageada e sua relação com o território onde viveu ou atuou.
Enquanto Pedro Rajão conduz o levantamento histórico, Fernando Cazé assina a identidade visual das obras.
Murais do projeto já foram instalados em locais de grande relevância institucional e histórica, como a Academia Brasileira de Letras (ABL), o Colégio Pedro II e o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio.
Um dos destaques é o mural de 21 metros de altura em homenagem a Machado de Assis, instalado na sede da ABL.
Personalidades retratadas
Entre os homenageados estão nomes de grande relevância da cultura brasileira, como:
- Elza Soares
- Paulinho da Viola
- Conceição Evaristo
- Wilson das Neves
- Leci Brandão
O projeto também eterniza figuras históricas, como:
- João Cândido, o Almirante Negro
- Machado de Assis
- Fela Kuti
- Adhemar Ferreira da Silva
A proposta é ampliar a presença da memória afro-brasileira no espaço urbano do Rio, oferecendo à população um novo olhar sobre a herança histórica e cultural da cidade.
Impacto nas escolas e na educação
Além das pinturas, o NegroMuro também atua diretamente em escolas, sobretudo da rede pública do Rio de Janeiro.
A iniciativa promove debates, oficinas e atividades de imersão pedagógica antes e depois da construção dos murais, permitindo que os estudantes conheçam a importância histórica das personalidades retratadas.
O projeto já chegou, inclusive, a ser citado em livros didáticos, ampliando seu alcance educacional e cultural.
A derrubada do veto representa uma vitória simbólica para movimentos ligados à valorização da cultura negra e à preservação da memória histórica na capital fluminense.
Com a promulgação, o NegroMuro passa a integrar oficialmente o patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.
