A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (15), uma ofensiva de grande escala contra um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão no Brasil. Batizada de Operação Luxury, a ação atingiu nomes conhecidos do entretenimento e das redes sociais, como MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, responsável pela página Choquei.
As investigações revelaram uma estrutura sofisticada que unia tráfico internacional de drogas, apostas ilegais, rifas digitais clandestinas e golpes virtuais. O caso teve início a partir de uma análise tecnológica: dados armazenados em nuvem no iCloud de Rodrigo de Paula Morgado, apontado como operador financeiro do grupo, foram fundamentais para que a Polícia Federal tivesse acesso à contabilidade detalhada da organização.
Com autorização judicial, os agentes encontraram registros considerados estratégicos, incluindo extratos bancários, contratos informais, documentos de empresas e conversas que indicavam mecanismos de ocultação patrimonial. A partir desse material, foi possível identificar uma rede estruturada exclusivamente para lavagem de dinheiro em larga escala.
Entre os principais alvos está MC Ryan SP, apontado pelas autoridades como figura central no funcionamento do esquema. Segundo a investigação, o artista utilizava empresas do setor musical para misturar receitas legais com valores ilícitos, criando uma blindagem patrimonial por meio da transferência de bens para terceiros. Durante buscas, foram apreendidos itens de alto valor, como joias e veículos de luxo, além de um colar com referência ao narcotraficante Pablo Escobar.
No Rio de Janeiro, MC Poze do Rodo também foi preso em um condomínio de alto padrão no Recreio dos Bandeirantes. De acordo com a PF, ele participava da engrenagem financeira por meio de uma empresa ligada ao seu nome, utilizada para movimentar recursos oriundos de rifas digitais e apostas ilegais. O cantor é investigado por lavagem de dinheiro, associação criminosa e evasão de divisas.
Outro ponto que chamou atenção foi o uso de páginas de grande alcance nas redes sociais para fortalecer o esquema. Raphael Sousa Oliveira, criador da Choquei, foi identificado como responsável por gerenciar a imagem pública dos envolvidos. Segundo a Polícia Federal, ele recebia pagamentos para divulgar conteúdos favoráveis, promover plataformas ilegais e atuar na contenção de crises que pudessem prejudicar o grupo. A influenciadora Chrys Dias também foi citada e presa por participação na divulgação das rifas.
O funcionamento do esquema seguia etapas típicas de lavagem de dinheiro. Os valores eram inicialmente fragmentados em depósitos menores para evitar detecção por órgãos de controle. Em seguida, passavam por empresas de fachada e contas em nome de terceiros. Parte do dinheiro era convertida em criptomoedas por meio de plataformas digitais, facilitando transferências internacionais. Por fim, os recursos retornavam aos líderes na forma de bens de luxo, como imóveis, aeronaves e embarcações.
A investigação também identificou operadores responsáveis pela logística financeira. Entre eles, Tiago de Oliveira, apontado como gestor próximo a MC Ryan, e Alexandre Santos, conhecido como Belga ou Xandex, que intermediava transações entre plataformas de apostas e empresas ligadas ao grupo. Pessoas usadas como “laranjas” também aparecem como titulares formais de bens que, na prática, pertenciam aos investigados.
Como resultado da operação, a Justiça determinou o bloqueio de contas e o sequestro de bens até o limite de R$ 1,63 bilhão. Ao todo, foram cumpridos 39 mandados de prisão e 45 de busca e apreensão em diferentes estados e no Distrito Federal. A Polícia Federal também conseguiu autorização para acessar novos dados armazenados em serviços digitais, o que pode ampliar ainda mais o alcance das investigações.
Em nota, a defesa de MC Ryan SP informou que ainda não teve acesso completo ao processo, que tramita sob sigilo, e afirmou que as atividades do artista são legais e devidamente registradas. Já a equipe jurídica de MC Poze do Rodo declarou que irá se manifestar após análise detalhada das acusações. Até o momento, outros citados no caso não apresentaram posicionamento oficial.
