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Saúde

Nikolas distorce audiência de Fauci para ressuscitar negacionismo de Bolsonaro*

Por 5 min de leitura Expresso Rio
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Nikolas distorce audiência de Fauci para ressuscitar negacionismo de Bolsonaro*
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Nikolas Ferreira publicou um vídeo para apresentar a audiência de Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos como a prova definitiva de que Jair Bolsonaro estava certo durante a pandemia. A montagem reúne acusações de parlamentares republicanos, trechos retirados de contexto e imagens antigas da imprensa brasileira para concluir que máscaras, distanciamento, vacinas e restrições sanitárias formaram uma grande fraude.

A audiência ocorreu em 29 de julho, e Fauci realmente invocou a Quinta Emenda mais de cem vezes, recusando-se a responder aos senadores. Isso, porém, não converte automaticamente as acusações feitas contra ele em fatos comprovados.

A verdade sobre o COVID – nunca foi pela a ciência. pic.twitter.com/cZVMpr8HaR

— Nikolas Ferreira (@nikolas_dm) August 2, 2026

A Quinta Emenda impede que uma pessoa seja obrigada a produzir declarações que possam ser usadas contra ela em um processo criminal. Não é uma confissão de culpa. Fauci afirmou que seguiu a orientação dos advogados diante da campanha do senador Rand Paul para processá-lo e do risco de qualquer nova declaração ser usada em uma acusação de perjúrio — hipótese não coberta pelo perdão preventivo concedido por Joe Biden em 2025. Nikolas omite esse contexto e apresenta o exercício de um direito constitucional como se fosse a admissão de que todas as acusações feitas durante a sessão eram verdadeiras.

O mesmo expediente aparece na exploração dos diários de Fauci. Uma das anotações mais citadas pelos republicanos afirma que o mercado de Wuhan não teria sido a inicial do vírus, mas um amplificador da transmissão. A frase seguinte, retirada das montagens, registra que o vírus teria saltado de animais para seres humanos.

Portanto, o texto não mostra que Fauci conhecia uma origem laboratorial e a escondeu. A origem exata permanece sem comprovação definitiva, embora análises científicas continuem apontando o mercado de Huanan como peça central do início do surto e encontrem mais elementos favoráveis a um transbordamento zoonótico do que à engenharia genética.

A tentativa de reabilitar a cloroquina é ainda mais grosseira. Um medicamento pode ter um histórico aceitável de segurança para doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide e, ao mesmo tempo, não funcionar contra a Covid-19. Segurança para uma indicação não significa eficácia para outra. Ensaios clínicos randomizados concluíram que a hidroxicloroquina não reduziu mortes, falência de órgãos, tempo de internação ou necessidade de oxigênio em pacientes com Covid.

A FDA revogou a autorização emergencial depois de constatar falta de benefício e riscos cardíacos. A OMS também concluiu que o remédio produzia pouca ou nenhuma redução da mortalidade. A afirmação de que ele “poderia ter salvado milhões” não foi demonstrada por nenhum estudo confiável.

Nikolas repete a mesma manobra com a ivermectina. Um senador exibiu compilações de estudos que apontariam eficácia de 60% ou 70%, mas quantidade de publicações não substitui qualidade metodológica. Parte dos primeiros trabalhos favoráveis tinha amostras pequenas, problemas de desenho ou acabou retirada.

Ensaios randomizados maiores, inclusive um realizado no Brasil, não encontraram redução de hospitalizações, progressão da doença ou tempo de recuperação. A FDA nunca autorizou o medicamento contra a Covid-19. A suposta “comprovação” oferecida no vídeo é uma fala política em uma audiência, não o resultado do conjunto das evidências científicas.

O deputado também insinua que um infarto pulmonar sofrido por Fauci meses após a vacinação comprovaria um efeito adverso escondido. A audiência não apresentou laudo que estabelecesse essa relação causal. A sequência temporal — um problema médico ocorrido depois de uma vacina — não basta para demonstrar que a vacina provocou o problema.

Fauci recebeu o imunizante da Moderna. Os eventos raros reconhecidamente associados às vacinas de RNA mensageiro são principalmente miocardite e pericardite; a síndrome de trombose com plaquetas baixas foi relacionada sobretudo à vacina da Janssen, de plataforma diferente.

Outro trecho emocionalmente carregado mistura pesquisas com tecido fetal, linhagens celulares e fabricação de vacinas. Há pesquisas biomédicas que utilizaram tecidos fetais, assunto sujeito a debate ético e a regras específicas. Isso não significa que as vacinas de RNA mensageiro contenham “partes de bebês”. Pfizer e Moderna não contêm células ou tecidos fetais. Linhagens celulares descendentes de material obtido décadas atrás foram usadas em testes de desenvolvimento de alguns imunizantes, e uma linhagem foi utilizada na produção da vacina da Janssen, mas o produto final não contém tecido fetal. Nikolas deixa essas diferenças de fora para produzir repulsa e suspeita.

Houve erros, mudanças de orientação e decisões discutíveis na resposta à pandemia. A regra rígida dos seis pés de distância, por exemplo, não tinha a base científica sólida que autoridades afirmavam possuir. Isso merece escrutínio. Mas desse reconhecimento não decorre que máscaras fossem inúteis, que qualquer restrição fosse criminosa ou que Bolsonaro estivesse certo ao promover medicamentos ineficazes. Máscaras bem ajustadas e respiradores reduzem a transmissão do SARS-CoV-2, segundo o próprio CDC e revisões científicas. Transformar falhas reais em prova de uma conspiração total é justamente o método do negacionismo.

A operação retórica de Nikolas é simples: uma audiência conduzida por adversários de Fauci vira julgamento científico; perguntas de senadores viram provas; o silêncio do depoente vira confissão; e estudos clínicos são substituídos por cortes de vídeo. Fauci pode e deve ser cobrado por decisões, contradições e eventuais erros. O que a audiência não fez foi ressuscitar a cloroquina, comprovar a ivermectina ou absolver Bolsonaro. O tempo não deu razão ao ex-presidente. Os ensaios clínicos deram a resposta — e Nikolas precisou apagá-los do vídeo.

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