O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ficou de fora da nova rodada de negociações com o Irã, marcada para ocorrer no Paquistão, em um movimento que evidencia mudanças na condução da política externa do governo de Donald Trump. Considerado um dos principais interlocutores de Eduardo Bolsonaro dentro da atual gestão americana, Rubio tem perdido espaço nas principais articulações diplomáticas.
De acordo com informações publicadas pelo jornal The New York Times, a delegação dos Estados Unidos enviada a Islamabad será liderada por Steve Witkoff e Jared Kushner, enquanto Rubio permanecerá em Washington. A ausência chama atenção por quebrar uma tradição da diplomacia americana, na qual o secretário de Estado costuma liderar negociações estratégicas, especialmente em temas sensíveis como acordos nucleares e conflitos no Oriente Médio.
Como referência histórica, durante as tratativas do acordo nuclear com o Irã na gestão de Barack Obama, o então secretário de Estado John Kerry teve atuação direta e prolongada, participando de encontros intensivos ao longo de quase dois anos.
No cenário atual, Rubio não apenas ficou fora dessa nova rodada, como também esteve ausente de reuniões recentes entre Estados Unidos e Irã, além de negociações realizadas em cidades como Genebra e Doha. Sua ausência também se repete em outras frentes internacionais, como discussões sobre a guerra na Ucrânia e o conflito em Gaza. Mesmo diante de tensões no Oriente Médio, sua última visita à região foi uma passagem breve por Israel, ainda no ano passado.
Parte dessa mudança está relacionada ao acúmulo de funções. Rubio exerce simultaneamente o comando do Departamento de Estado e o cargo de conselheiro de segurança nacional uma combinação rara na política americana, registrada pela última vez na década de 1970 com Henry Kissinger.
Analistas apontam que essa dupla função amplia sua proximidade com Trump, mas limita sua atuação direta no exterior. A pesquisadora Emma Ashford avalia que Rubio tem priorizado a permanência ao lado do presidente, o que, segundo ela, compromete a atuação do Departamento de Estado. Na visão da especialista, essa dinâmica enfraquece a capacidade dos Estados Unidos de conduzir negociações internacionais de forma tradicional.
O governo, no entanto, contesta essa interpretação. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, afirmou que a integração entre Rubio e a Casa Branca representa um avanço, destacando que a coordenação entre os órgãos está mais alinhada do que em administrações anteriores.
O próprio Rubio também defende o modelo. Em entrevista ao site Politico, ele afirmou que mantém presença frequente no Departamento de Estado e destacou que a unificação de funções pode tornar reuniões mais eficientes, evitando duplicidade de agendas com autoridades estrangeiras.
Apesar disso, vozes experientes da área de segurança nacional demonstram preocupação. Matthew Waxman, que atuou em diferentes órgãos durante o governo de George W. Bush, classificou como arriscada a concentração de funções em uma única pessoa. Ainda assim, ponderou que, diante do cenário atual, a ausência de Rubio nas negociações com o Irã pode não ser necessariamente negativa, considerando a complexidade das outras demandas da política externa americana.
