O Partido Liberal (PL) realizou um repasse de R$ 600 mil para uma organização não governamental (ONG) presidida por um pré-candidato do partido no Rio Grande do Sul, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo. Os pagamentos ocorreram entre janeiro e abril deste ano e foram destinados à Associação Passos da Liberdade, entidade responsável pela produção de um documentário financiado parcialmente por emendas parlamentares de integrantes do PL.
A ONG, sediada em Porto Alegre, é presidida por Rodrigo Cassol Lima, que é pré-candidato a deputado estadual pelo PL. De acordo com documentos fiscais apresentados pelo partido, os recursos foram pagos como contrapartida por serviços de assessoria em comunicação institucional e produção audiovisual para atividades realizadas em Minas Gerais.
Chama atenção o fato de a mesma entidade estar à frente da produção de um longa-metragem que critica governos socialistas, classificando-os como “autoritários”, e que recebeu recursos públicos por meio de emendas parlamentares de três integrantes da legenda.
Conforme nota fiscal obtida pela Folha, a Passos da Liberdade recebeu pagamentos mensais de R$ 150 mil entre janeiro e abril de 2026, totalizando R$ 600 mil. O documento informa que a contratação ocorreu para a “prestação de serviços de assessoria em comunicação e de produção audiovisual no Estado de Minas Gerais”.
A Associação Passos da Liberdade foi criada em 2023 e está registrada como uma associação “de defesa de direitos sociais”. No entanto, a organização desenvolve projetos voltados à produção de conteúdo audiovisual com perfil conservador.
Até a publicação da reportagem original, o diretório nacional do PL, presidido por Valdemar Costa Neto, não havia se manifestado sobre a contratação, apesar de ter sido procurado.
O documentário “Nós”, produzido pela Passos da Liberdade, recebeu R$ 860 mil em emendas parlamentares destinadas pelos deputados federais Mario Frias (PL-SP), Marcos Pollon (PL-MS) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que perdeu o mandato de deputado federal em dezembro.
O lançamento do filme está previsto para o dia 15 de julho, em uma sessão no Cine Brasília. De acordo com pessoas ligadas à produção, lideranças da direita deverão ser convidadas para a estreia, embora ainda não exista uma lista oficial de presenças confirmadas.
Segundo a proposta da obra, o documentário aborda regimes autoritários comunistas que se estabeleceram em países da Europa após a Segunda Guerra Mundial. As gravações foram realizadas em diversos países europeus, entre eles Polônia, Alemanha, República Tcheca e Hungria.
Embora tenha perfil ideológico alinhado à extrema direita, a produção afirma não possuir ligação com o ex-presidente Jair Bolsonaro nem abordar sua trajetória política.
O documentário é dirigido por Gustavo Lopes, que ocupou o cargo de secretário nacional do Audiovisual em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. Antes disso, Lopes também comandou áreas de comunicação do Ministério do Trabalho e Previdência e da Casa Civil.
Rodrigo Cassol Lima atua como coprodutor e responsável jurídico da obra. O roteiro também conta com participação de Doriel Francisco, proprietário da Dori Filmes.
Em nota, a Passos da Liberdade confirmou a existência do contrato firmado com o diretório nacional do PL. Segundo a entidade, o acordo foi celebrado “para a prestação de serviços de comunicação institucional, com entrega de produto audiovisual”.
A organização ressaltou que a contratação não possui caráter eleitoral. De acordo com a nota, a “contratação tem natureza institucional e não se confunde com pré-campanha, campanha eleitoral, propaganda eleitoral ou promoção pessoal de qualquer dirigente da entidade”.
Sobre o fato de o presidente da associação ser pré-candidato pelo partido, a entidade afirmou que Rodrigo Cassol Lima não recebe qualquer benefício financeiro relacionado ao contrato.
A ONG também declarou que o acordo firmado com o PL não guarda relação com os projetos desenvolvidos por meio de recursos do Ministério da Cultura.
A Passos da Liberdade também fez questão de afastar qualquer associação entre suas atividades e o filme “Dark Horse”, produção que se tornou alvo de investigações e gerou repercussão política.
Segundo a entidade, os dois projetos são completamente independentes. “São iniciativas distintas, com objetos, fontes, finalidades e regimes próprios”, afirmou a Passos da Liberdade.
A associação informou ainda que não pode divulgar detalhes do contrato firmado com o PL em razão de cláusulas contratuais.
Ao concluir a manifestação, a entidade reafirmou a legalidade de suas atividades. “A associação reafirma que atua dentro dos limites legais e contratuais aplicáveis, mantendo a separação integral entre suas diferentes iniciativas, projetos e obrigações institucionais”, completou a Passos da Liberdade, em nota.

