Fim da escala 6×1 entra no debate após OIT ligar trabalho a 840 mil mortes

Manifestantes protestam pelo fim da escala 6×1 na Avenida Paulista. Imagem: Roberto Sungi/Ato Press/Estadão Conteúdo

O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou novo peso após a divulgação de um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que aponta que mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de riscos psicossociais ligados ao trabalho. Entre os fatores citados estão longas jornadas, pressão excessiva, assédio moral e insegurança no emprego.

Segundo o estudo, os impactos vão além do desgaste emocional. Os riscos estão diretamente associados a doenças cardiovasculares, AVC, transtornos mentais e casos de burnout, além de mortes relacionadas ao agravamento do estresse ocupacional. O relatório também estima que esse cenário represente uma perda de 1,37% do PIB global por ano.

A divulgação dos dados reacendeu no Brasil a discussão sobre a escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos com apenas um dia de descanso. Para especialistas em saúde ocupacional, a jornada contínua é frequentemente apontada como um dos fatores que reduzem a capacidade de recuperação física e mental.

A própria OIT destaca que jornadas longas e contínuas figuram entre os principais fatores de risco psicossocial no ambiente de trabalho, especialmente quando combinadas com metas elevadas, pouco controle sobre a rotina e ausência de períodos adequados de descanso.

No Brasil, os sinais desse impacto já aparecem nos afastamentos por transtornos mentais. Casos de burnout, ansiedade e depressão relacionados ao ambiente de trabalho vêm crescendo nos últimos anos, em meio ao aumento da pressão por produtividade e à precarização das relações trabalhistas.

O novo relatório também chama atenção para o chamado ambiente psicossocial do trabalho, conceito que engloba a forma como a atividade é organizada, o ritmo de execução, a carga horária, o suporte institucional e as políticas internas das empresas. Segundo a entidade, ambientes mal geridos podem transformar o trabalho em fator de adoecimento.

Nesse contexto, a discussão sobre a redução da jornada deixou de ser apenas uma pauta trabalhista e passou a ser tratada por especialistas como uma questão de saúde pública.

A OIT ressalta que a prevenção exige mudanças estruturais, como reorganização das jornadas, combate ao assédio e políticas de saúde mental dentro das empresas.

O tema ganhou força após o relatório global divulgado pela OIT no âmbito do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho 2026, celebrado em 28 de abril. A entidade destaca que a transformação do mercado, incluindo digitalização, metas intensificadas e novos modelos de contratação, tem ampliado os riscos psicossociais.

Com os novos números, a discussão sobre o fim da escala 6×1 tende a ganhar ainda mais espaço no debate público, envolvendo saúde mental, produtividade e direitos trabalhistas.

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