Terras raras: venda de mineradora do Brasil muda disputa global

Donald Trump, presidente dos EUA, e Xi Jinping, presidente da China. Foto: Kevin Lamarque/Reuters

A negociação envolvendo a mineradora brasileira Serra Verde reposiciona o Brasil no centro de uma disputa estratégica entre Estados Unidos e China. A empresa americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da companhia, avaliada em US$ 2,8 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões), com conclusão prevista para o terceiro trimestre.

A Serra Verde é atualmente a única operação fora da Ásia capaz de produzir terras raras em escala comercial, o que eleva o peso geopolítico da transação. Esses elementos são considerados essenciais para a fabricação de tecnologias de alto valor, como motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.

Estrutura do negócio e impacto global

O acordo prevê pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro, além da emissão de aproximadamente 126,8 milhões de ações da USA Rare Earth, que serão transferidas aos atuais controladores da mineradora brasileira.

Com isso, fundos como Denham Capital, Energy & Minerals Group e Vision Blue Resources passarão a controlar 34% da nova companhia, consolidando posição de destaque na estrutura acionária. Caso seja aprovado, o negócio dará origem a um grupo com operações distribuídas entre Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido.

A atuação será integrada, cobrindo desde a extração mineral até a produção de ímãs permanentes, componentes fundamentais para diversas indústrias tecnológicas e estratégicas.

Disputa entre EUA e China pressiona mercado

Mina de Terras Raras Serra Verde, em Goiás. Foto: Reprodução

A movimentação ocorre em meio ao aumento da tensão entre Estados Unidos e China pelo controle da cadeia de terras raras. O cenário ganhou força após o governo chinês impor restrições à exportação desses minerais, levando países ocidentais a buscar novas fontes de fornecimento.

A USA Rare Earth, que recebe apoio de programas federais americanos, já obteve financiamento de US$ 1,6 bilhão para expandir suas operações. Apesar de possuir um depósito no Texas, a empresa ainda não iniciou exploração comercial no local, principalmente devido à baixa concentração dos minerais, o que eleva custos.

A expectativa é que a companhia alcance produção anual de 6,4 mil toneladas de óxidos até 2027, com projeção de gerar cerca de US$ 1,8 bilhão em Ebitda até 2030.

Brasil ganha protagonismo estratégico

No território brasileiro, a operação da Serra Verde está localizada em Goiás e utiliza o método de argila iônica, considerado mais eficiente e de menor custo para a extração de terras raras. Todo o material é processado no país antes de ser exportado.

Especialistas apontam que a negociação pode ampliar o interesse internacional pelo Brasil como fornecedor estratégico desses minerais, especialmente diante da necessidade global de diversificação da cadeia produtiva.

O contrato firmado também prevê fornecimento por 15 anos, com preços mínimos garantidos, reduzindo riscos e assegurando estabilidade comercial para a nova operação.

Potencial brasileiro ainda é subexplorado

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de óxidos de terras raras, ficando atrás apenas da China. Apesar disso, o país ainda atua majoritariamente como exportador de matéria-prima.

A avaliação de analistas é que o Brasil pode ampliar significativamente sua participação nesse mercado caso avance em políticas industriais voltadas ao refino e processamento, etapas que agregam maior valor à cadeia produtiva.

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