O desempenho do ensino médio público do Rio de Janeiro voltou a acender o alerta sobre a qualidade da educação estadual. Dados do Ideb 2025, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que a rede pública fluminense obteve nota 3,7 no ensino médio. Apesar do avanço em relação aos 3,3 registrados em 2023, o resultado mantém o estado entre os piores desempenhos do país. No Paraná, por exemplo, a rede pública alcançou 5,1.
Na ponta dessa realidade estão estudantes que relatam dificuldades para acompanhar o conteúdo exigido em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). André Monteiro, de 18 anos, aluno do Colégio Estadual Max Fleiuss, na Pavuna, conta que precisa complementar os estudos em casa. Em Matemática, recorre à ajuda do irmão; nas demais disciplinas, busca videoaulas na internet. Seu objetivo é cursar Educação Física, mas o jovem teme chegar à disputa por uma vaga no ensino superior em condições desiguais.
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Situação semelhante é relatada por Ícaro Lucas de Oliveira, de 19 anos, estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio Estadual Castelnuovo, em Copacabana. Segundo ele, a falta de professores comprometeu parte da formação escolar. O estudante afirma que, no ano passado, chegou a ficar sem aulas de Química. Para quem se prepara para o Enem, diz, a ausência de uma disciplina inteira representa uma lacuna difícil de recuperar.
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O Ideb combina o desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) com os índices de aprovação escolar. Na edição de 2025, o Rio apresentou melhora em todas as etapas avaliadas, mas a situação do ensino médio continua distante dos estados de melhor desempenho. No 3º ano, os resultados fluminenses do Saeb ficaram em 270,24 pontos em Português e 269,10 em Matemática.
Especialistas ouvidos sobre a situação apontam que o problema não pode ser atribuído a uma única causa. Entre os fatores mencionados estão a carência de professores em determinadas disciplinas, a necessidade de políticas permanentes de recuperação da aprendizagem, a baixa presença do ensino em tempo integral e a falta de continuidade de projetos pedagógicos. Também há críticas ao modelo de progressão parcial, que permite ao estudante avançar de série enquanto recupera conteúdos não assimilados. A Secretaria estadual de Educação, por sua vez, sustenta que o mecanismo não representa aprovação automática e tem como objetivo enfrentar a evasão e garantir a continuidade dos estudos.
Outro componente que interfere diretamente na rotina escolar é a violência urbana. Em áreas atingidas por confrontos armados e operações policiais, famílias relatam suspensões de aulas e insegurança no deslocamento dos estudantes. Para educadores, interrupções frequentes podem comprometer a sequência do conteúdo e ampliar dificuldades já existentes, especialmente entre alunos que acumulam defasagens de aprendizagem.
Na avaliação de especialistas, melhorar os indicadores exige ações que ultrapassem a simples elevação da taxa de aprovação. Entre as medidas defendidas estão a recomposição de conteúdos, ampliação do tempo integral, acompanhamento individual dos estudantes com maior dificuldade, formação continuada dos professores e redução das carências de docentes. O próprio Inep destaca que o Ideb deve ser analisado conjuntamente com os resultados de aprendizagem, justamente porque o indicador reúne desempenho acadêmico e fluxo escolar.
A Secretaria estadual afirma que tem adotado medidas para ampliar a carga horária disponível aos alunos e enfrentar a falta de profissionais, incluindo contratação temporária e jornadas adicionais. O desafio, porém, permanece exposto pelos números: mesmo com a melhora registrada entre 2023 e 2025, a nota 3,7 no ensino médio público mantém o Rio distante das redes estaduais com melhores resultados. Para estudantes que estão às portas do Enem e do mercado de trabalho, a discussão vai além das estatísticas passa pela quantidade e, principalmente, pela qualidade das aulas recebidas diariamente.




