Pular para o conteúdo
Mundo

Documento secreto da CIA revela como ditadura brasileira trocou ideologia por mercado na Guerra Fria

Por 7 min de leitura Expresso Rio
documento-secreto-da-cia-revela-como-ditadura-brasileira-trocou-ideologia-por-mercado-na-guerra-fria
Documento secreto da CIA revela como ditadura brasileira trocou ideologia por mercado na Guerra Fria
Seguir no Google News
Ouvir texto Pronto

Um documento da CIA produzido em agosto de 1974 e desclassificado 25 anos depois revelou como o governo do general Ernesto Geisel conduziu uma política externa cada vez mais orientada por interesses econômicos, reduzindo o peso das diferenças ideológicas em plena Guerra Fria.

O relatório, intitulado “Brazil’s Changing Foreign Policy”, foi elaborado pelo Office of Current Intelligence da CIA e recebeu originalmente a classificação “Secret – No Foreign Dissem”, indicando que seu conteúdo era sigiloso e não deveria ser compartilhado com governos estrangeiros. O documento só foi liberado ao público em 25 de setembro de 1999.

Segundo a análise dos agentes americanos, depois de anos de forte crescimento econômico, o Brasil havia se tornado cada vez mais dependente do comércio internacional. Por isso, a busca por mercados, petróleo e outros recursos passou a ocupar posição central na política externa de Brasília.

O “pragmatismo responsável” de Geisel

A CIA identificava no governo Geisel uma estratégia que o próprio Itamaraty definia como “pragmatismo responsável”: buscar vantagens econômicas e políticas onde fossem possíveis, independentemente das diferenças ideológicas entre os países.

Essa orientação permitiu ao Brasil ampliar relações com governos comunistas justamente no período de maior tensão entre Estados Unidos e União Soviética.

O relatório avaliava que a aproximação com países comunistas também era facilitada pela percepção de que a ameaça representada pelos movimentos armados de esquerda havia diminuído. Na avaliação dos analistas americanos, isso teria aumentado a confiança do governo brasileiro para estabelecer relações com países do bloco socialista sem considerar que isso representasse necessariamente um risco à segurança interna.

Para a CIA, havia ainda outra dimensão: a política externa de Geisel servia para demonstrar a independência do Brasil em relação a Washington e a intenção de transformar o país em uma potência com interesses globais.

China e o bloco comunista

A mudança de postura ficou especialmente evidente na aproximação com a China. O Brasil passou a reduzir a importância das diferenças ideológicas e a ampliar sua disposição para reconhecer e negociar com governos comunistas.

Na Europa Oriental, Brasília estabeleceu relações diplomáticas formais com a Alemanha Oriental e elevou suas representações na Bulgária, Hungria e Romênia ao nível de embaixadas.

Segundo o relatório, representantes soviéticos e de países do Leste Europeu percebiam o Brasil como “muito mais receptivo” às suas propostas.

A aproximação também alcançou Pequim, com o estabelecimento de relações diplomáticas entre Brasil e China.

A lógica, segundo a CIA, era essencialmente pragmática: ampliar mercados, garantir recursos e abrir novas oportunidades comerciais.

Petróleo empurrou Brasil para o mundo árabe

A crise do petróleo de 1973 acelerou outra mudança importante.

O documento apontava que o Brasil importava mais de 75% do petróleo consumido internamente. A dependência energética levou o governo militar a adotar uma posição mais favorável aos países árabes e a se afastar da antiga identificação automática com Israel.

Brasília abriu uma embaixada residente na Líbia e uma representação diplomática na Arábia Saudita. Paralelamente, a Petrobras passou a buscar agressivamente oportunidades no exterior.

A empresa conseguiu direitos conjuntos de exploração no Irã, no Iraque e no Egito e também negociou acordos de troca, oferecendo tecnologia, produtos industrializados e produtos agrícolas em troca de petróleo.

A diplomacia brasileira, portanto, estava diretamente ligada à necessidade de garantir energia para sustentar o crescimento econômico.

América do Sul: influência, energia e segurança

Na América do Sul, a CIA identificava uma combinação de cooperação econômica, militar e diplomática destinada a ampliar a influência brasileira sobre os países vizinhos.

Na Bolívia, o Brasil oferecia equipamentos militares, treinamento para órgãos de segurança e apoio econômico, enquanto buscava garantir acesso às reservas de gás do país.

No Paraguai, Brasília avançava na construção do grande projeto hidrelétrico que daria origem a Itaipu, fundamental para ampliar a oferta de energia no Sul e no Sudeste brasileiros.

No Uruguai, o governo militar local dependia cada vez mais do apoio brasileiro em questões econômicas e políticas.

A CIA também acompanhava a rivalidade entre Brasil e Argentina. Os analistas americanos avaliavam que Brasília temia uma eventual aproximação entre Buenos Aires e outros países hispano-americanos contra os interesses brasileiros.

Mesmo assim, Geisel procurava evitar uma escalada regional. Em sua posse, em março de 1974, reuniu os líderes do Chile e da Bolívia, países que sequer mantinham relações diplomáticas, numa tentativa de exercer o papel de mediador regional.

Diante das tensões entre Chile e Peru, o Brasil também evitou fornecer armas a Santiago, preferindo preservar sua posição de moderador.

Chile e a queda de Allende

A derrubada de Salvador Allende no Chile, em 1973, era apresentada pela CIA como um acontecimento favorável aos interesses brasileiros.

A chegada da junta militar ao poder eliminou o Chile como importante destino de exilados brasileiros e, segundo a avaliação americana, reforçou em Brasília a percepção de que experiências marxistas não teriam futuro na região.

O governo brasileiro ofereceu assistência ao novo regime chileno, embora parte da ajuda prometida não tenha alcançado os valores inicialmente previstos e tenha beneficiado, sobretudo, as exportações brasileiras.

Brasil queria ser uma potência global

O relatório também descrevia a percepção que o próprio Brasil tinha de seu papel no mundo.

Com uma população superior a 100 milhões de habitantes, território continental e forte crescimento econômico, o país se enxergava como herdeiro da tradição portuguesa e como potência natural da América do Sul.

A CIA classificava a busca por “proeminência mundial sustentada” como uma meta ainda vaga, mas profundamente presente na visão estratégica de Brasília.

Essa ambição ajudava a explicar a tentativa de diversificar parceiros e reduzir a dependência política de Washington.

A relação com os Estados Unidos começava a ganhar limites

O chanceler Antonio Azeredo da Silveira teria deixado claro aos americanos que o Brasil não pretendia apoiar ou rejeitar posições internacionais automaticamente.

A lógica era analisar cada questão de acordo com o interesse nacional.

A postura já aparecia em temas importantes. O Brasil se recusava a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear e adotava posições divergentes dos Estados Unidos nas negociações sobre o Direito do Mar, defendendo um mar territorial de 200 milhas náuticas.

Havia também disputas comerciais envolvendo produtos brasileiros, como calçados, e a possibilidade de o país coordenar sua atuação com outros grandes produtores de café, cacau e minério de ferro.

Apesar das divergências, a CIA considerava improvável uma ruptura entre Brasília e Washington. Os vínculos históricos permaneciam fortes, e os Estados Unidos ainda eram, de longe, o principal comprador das exportações brasileiras.

Uma política externa menos ideológica

O documento de 1974 mostra, portanto, um regime militar que combinava repressão política interna e pragmatismo na política externa.

O Brasil continuava alinhado ao Ocidente e mantinha uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas não aceitava transformar esse alinhamento em submissão automática.

A necessidade de petróleo, mercados e tecnologia levou o governo Geisel a negociar simultaneamente com países árabes, governos africanos, nações comunistas europeias e a China.

Em plena Guerra Fria, o cálculo brasileiro era simples: a ideologia podia orientar alianças, mas não deveria impedir negócios considerados estratégicos para o interesse nacional.

Ouvir texto Pronto