Um documento da CIA produzido em agosto de 1974 e desclassificado 25 anos depois revelou como o governo do general Ernesto Geisel conduziu uma política externa cada vez mais orientada por interesses econômicos, reduzindo o peso das diferenças ideológicas em plena Guerra Fria.
O relatório, intitulado “Brazil’s Changing Foreign Policy”, foi elaborado pelo Office of Current Intelligence da CIA e recebeu originalmente a classificação “Secret – No Foreign Dissem”, indicando que seu conteúdo era sigiloso e não deveria ser compartilhado com governos estrangeiros. O documento só foi liberado ao público em 25 de setembro de 1999.
Segundo a análise dos agentes americanos, depois de anos de forte crescimento econômico, o Brasil havia se tornado cada vez mais dependente do comércio internacional. Por isso, a busca por mercados, petróleo e outros recursos passou a ocupar posição central na política externa de Brasília.
O “pragmatismo responsável” de Geisel
A CIA identificava no governo Geisel uma estratégia que o próprio Itamaraty definia como “pragmatismo responsável”: buscar vantagens econômicas e políticas onde fossem possíveis, independentemente das diferenças ideológicas entre os países.
Essa orientação permitiu ao Brasil ampliar relações com governos comunistas justamente no período de maior tensão entre Estados Unidos e União Soviética.
O relatório avaliava que a aproximação com países comunistas também era facilitada pela percepção de que a ameaça representada pelos movimentos armados de esquerda havia diminuído. Na avaliação dos analistas americanos, isso teria aumentado a confiança do governo brasileiro para estabelecer relações com países do bloco socialista sem considerar que isso representasse necessariamente um risco à segurança interna.
Para a CIA, havia ainda outra dimensão: a política externa de Geisel servia para demonstrar a independência do Brasil em relação a Washington e a intenção de transformar o país em uma potência com interesses globais.
China e o bloco comunista
A mudança de postura ficou especialmente evidente na aproximação com a China. O Brasil passou a reduzir a importância das diferenças ideológicas e a ampliar sua disposição para reconhecer e negociar com governos comunistas.
Na Europa Oriental, Brasília estabeleceu relações diplomáticas formais com a Alemanha Oriental e elevou suas representações na Bulgária, Hungria e Romênia ao nível de embaixadas.
Segundo o relatório, representantes soviéticos e de países do Leste Europeu percebiam o Brasil como “muito mais receptivo” às suas propostas.
A aproximação também alcançou Pequim, com o estabelecimento de relações diplomáticas entre Brasil e China.
A lógica, segundo a CIA, era essencialmente pragmática: ampliar mercados, garantir recursos e abrir novas oportunidades comerciais.
Petróleo empurrou Brasil para o mundo árabe
A crise do petróleo de 1973 acelerou outra mudança importante.
O documento apontava que o Brasil importava mais de 75% do petróleo consumido internamente. A dependência energética levou o governo militar a adotar uma posição mais favorável aos países árabes e a se afastar da antiga identificação automática com Israel.
Brasília abriu uma embaixada residente na Líbia e uma representação diplomática na Arábia Saudita. Paralelamente, a Petrobras passou a buscar agressivamente oportunidades no exterior.
A empresa conseguiu direitos conjuntos de exploração no Irã, no Iraque e no Egito e também negociou acordos de troca, oferecendo tecnologia, produtos industrializados e produtos agrícolas em troca de petróleo.
A diplomacia brasileira, portanto, estava diretamente ligada à necessidade de garantir energia para sustentar o crescimento econômico.
América do Sul: influência, energia e segurança
Na América do Sul, a CIA identificava uma combinação de cooperação econômica, militar e diplomática destinada a ampliar a influência brasileira sobre os países vizinhos.
Na Bolívia, o Brasil oferecia equipamentos militares, treinamento para órgãos de segurança e apoio econômico, enquanto buscava garantir acesso às reservas de gás do país.
No Paraguai, Brasília avançava na construção do grande projeto hidrelétrico que daria origem a Itaipu, fundamental para ampliar a oferta de energia no Sul e no Sudeste brasileiros.
No Uruguai, o governo militar local dependia cada vez mais do apoio brasileiro em questões econômicas e políticas.
A CIA também acompanhava a rivalidade entre Brasil e Argentina. Os analistas americanos avaliavam que Brasília temia uma eventual aproximação entre Buenos Aires e outros países hispano-americanos contra os interesses brasileiros.
Mesmo assim, Geisel procurava evitar uma escalada regional. Em sua posse, em março de 1974, reuniu os líderes do Chile e da Bolívia, países que sequer mantinham relações diplomáticas, numa tentativa de exercer o papel de mediador regional.
Diante das tensões entre Chile e Peru, o Brasil também evitou fornecer armas a Santiago, preferindo preservar sua posição de moderador.
Chile e a queda de Allende
A derrubada de Salvador Allende no Chile, em 1973, era apresentada pela CIA como um acontecimento favorável aos interesses brasileiros.
A chegada da junta militar ao poder eliminou o Chile como importante destino de exilados brasileiros e, segundo a avaliação americana, reforçou em Brasília a percepção de que experiências marxistas não teriam futuro na região.
O governo brasileiro ofereceu assistência ao novo regime chileno, embora parte da ajuda prometida não tenha alcançado os valores inicialmente previstos e tenha beneficiado, sobretudo, as exportações brasileiras.
Brasil queria ser uma potência global
O relatório também descrevia a percepção que o próprio Brasil tinha de seu papel no mundo.
Com uma população superior a 100 milhões de habitantes, território continental e forte crescimento econômico, o país se enxergava como herdeiro da tradição portuguesa e como potência natural da América do Sul.
A CIA classificava a busca por “proeminência mundial sustentada” como uma meta ainda vaga, mas profundamente presente na visão estratégica de Brasília.
Essa ambição ajudava a explicar a tentativa de diversificar parceiros e reduzir a dependência política de Washington.
A relação com os Estados Unidos começava a ganhar limites
O chanceler Antonio Azeredo da Silveira teria deixado claro aos americanos que o Brasil não pretendia apoiar ou rejeitar posições internacionais automaticamente.
A lógica era analisar cada questão de acordo com o interesse nacional.
A postura já aparecia em temas importantes. O Brasil se recusava a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear e adotava posições divergentes dos Estados Unidos nas negociações sobre o Direito do Mar, defendendo um mar territorial de 200 milhas náuticas.
Havia também disputas comerciais envolvendo produtos brasileiros, como calçados, e a possibilidade de o país coordenar sua atuação com outros grandes produtores de café, cacau e minério de ferro.
Apesar das divergências, a CIA considerava improvável uma ruptura entre Brasília e Washington. Os vínculos históricos permaneciam fortes, e os Estados Unidos ainda eram, de longe, o principal comprador das exportações brasileiras.
Uma política externa menos ideológica
O documento de 1974 mostra, portanto, um regime militar que combinava repressão política interna e pragmatismo na política externa.
O Brasil continuava alinhado ao Ocidente e mantinha uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas não aceitava transformar esse alinhamento em submissão automática.
A necessidade de petróleo, mercados e tecnologia levou o governo Geisel a negociar simultaneamente com países árabes, governos africanos, nações comunistas europeias e a China.
Em plena Guerra Fria, o cálculo brasileiro era simples: a ideologia podia orientar alianças, mas não deveria impedir negócios considerados estratégicos para o interesse nacional.



