Os recentes cortes na área de inteligência da segurança pública têm acendido um alerta no Rio de Janeiro e ampliado o debate sobre a eficácia das ações de combate ao crime organizado no estado. Nos últimos dois anos, a redução de metas, o adiamento de projetos estratégicos e a limitação orçamentária passaram a impactar diretamente o planejamento das forças de segurança.
Relatórios oficiais apontam que programas considerados fundamentais para fortalecer a capacidade investigativa foram interrompidos ou tiveram o alcance reduzido. O cenário ocorre em meio ao avanço de facções criminosas, à expansão territorial do tráfico e à dificuldade de capturar lideranças foragidas.
Projetos estratégicos foram adiados
Entre as principais medidas afetadas está a implantação de um centro tecnológico de inteligência, inicialmente previsto pelo governo estadual, mas retirado do cronograma. Outro projeto relevante, que previa a criação de agências de inteligência em 12 delegacias do Rio de Janeiro, foi adiado para o segundo semestre de 2025 e ainda não saiu do papel.
Também houve revisão nas metas de capacitação da Polícia Civil. O plano inicial previa o treinamento de quase 1.200 agentes em atividades ligadas à inteligência, número posteriormente reduzido para 477.
Apesar da revisão, 801 policiais foram capacitados em 2024, superando a meta ajustada, embora abaixo da previsão original.
Os dados constam no relatório de avaliação das atividades do governo com informações referentes a 2024, divulgado em março de 2025.
Segurança pública enfrenta cenário de alta complexidade
O enfraquecimento da inteligência acontece em um momento delicado para a segurança pública fluminense.
O Rio de Janeiro tem sido apontado por especialistas como rota e refúgio de chefes do tráfico oriundos de outras regiões do país, favorecidos pela fragmentação territorial e pelas limitações operacionais das forças policiais.
Mesmo com operações frequentes em comunidades da capital e da Região Metropolitana, os resultados têm sido questionados, principalmente pela dificuldade em prender alvos prioritários.
Um dos episódios mais emblemáticos foi a Operação Contenção, realizada em outubro do ano passado nos complexos da Penha e do Alemão, que terminou com 122 mortos e se tornou a ação policial mais letal da história do país.
Apesar da magnitude da operação, lideranças criminosas consideradas prioritárias, como Edgar Alves de Andrade, o Doca, permaneceram foragidas.
Especialistas avaliam que a ausência de um sistema de inteligência integrado compromete diretamente a eficácia dessas ações.
Especialistas apontam fragilidade estrutural
Para a economista Karine Vargas, coordenadora do Observatório de Orçamento e Finanças Públicas dos Entes Subnacionais da Uerj, o baixo investimento afeta diretamente a qualidade das investigações.
Segundo ela, os recursos são insuficientes para garantir tecnologia de ponta e operações de precisão contra o crime organizado.
Na mesma linha, o capitão Daniel Ferreira de Souza, da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar, afirmou em reunião no Congresso Nacional que os resultados recentes ainda são limitados diante da estrutura das facções no Rio.
O especialista em direito penal Cristiano Maronna também avalia que o modelo atual prioriza o policiamento ostensivo em detrimento da investigação, o que enfraquece a capacidade do estado de esclarecer crimes e desmantelar organizações criminosas.
Orçamento reduzido levanta questionamentos
O orçamento total da segurança pública do estado em 2025 foi fixado em R$ 24,08 bilhões.
Desse montante, pouco mais de R$ 1 milhão foi destinado à subfunção Informação e Inteligência, valor inferior à previsão inicial de R$ 2,3 milhões, posteriormente reduzida.
Na prática, isso significa que, a cada R$ 100 investidos em segurança no Rio, menos de meio centavo foi destinado especificamente à inteligência.
Especialistas também criticam a pulverização dos recursos em diferentes rubricas, o que dificulta o acompanhamento e a fiscalização dos gastos públicos.
Investimentos oscilaram nos últimos anos
Os números mostram falta de continuidade na política de financiamento da inteligência.
Em 2021, os investimentos chegaram a R$ 23,4 milhões.
Nos anos seguintes, os valores caíram de forma significativa. Em 2023, por exemplo, apenas R$ 1,7 milhão foi efetivamente pago.
Já em 2024, houve aumento para R$ 14,3 milhões, com foco principalmente na locação de softwares.
Mesmo assim, o valor representou apenas 0,08% do orçamento total da segurança pública do estado.
Perícia e investigação também foram afetadas
Os cortes também atingem a polícia técnico-científica, responsável pela produção de provas e apoio às investigações.
Entre 2022 e 2025, o orçamento da área caiu de R$ 53 milhões para menos de R$ 30 milhões.
Uma das principais consequências apontadas é a baixa taxa de elucidação de homicídios.
Dados indicam que apenas um em cada quatro assassinatos é esclarecido no estado.
Governo do Rio rebate críticas
Em nota, o governo do Rio de Janeiro informou ter investido mais de R$ 377,5 milhões em equipamentos de inteligência, incluindo câmeras, drones e softwares.
Também destacou a criação de uma Central de Inteligência da Polícia Civil e a modernização do Centro Integrado de Comando e Controle, com sistema de reconhecimento facial que já resultou na prisão de mais de 500 foragidos.
A gestão estadual afirmou ainda que parte dos investimentos não está concentrada em uma única rubrica orçamentária, o que explicaria os valores reduzidos na subfunção específica.
Desde março de 2026, o estado é comandado interinamente por Ricardo Couto, após a renúncia do ex-governador Cláudio Castro.
