Declarações da presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, reacenderam o debate sobre a relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a juventude brasileira e o papel das redes sociais na política atual.
Em entrevista ao Estadão, Bianca destacou a diferença entre a forma de comunicação de Lula e a de nomes da nova direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira, ao mencionar que o presidente sequer utiliza celular, enquanto adversários políticos dominam as plataformas digitais.
A fala ganhou repercussão ao levantar uma discussão que vai além do uso de tecnologia: a crescente distância entre a política institucional e os jovens, cada vez mais presentes nas telas e menos nas ruas.
Segundo a dirigente estudantil, de um lado está um presidente sem presença direta nas redes por meio do celular; do outro, políticos que transformam o próprio cotidiano em conteúdo para internet, com vídeos curtos, transmissões e cortes voltados ao engajamento digital.
O debate surge em um momento em que pesquisas e análises políticas apontam mudanças no comportamento da juventude, com menor participação em mobilizações de rua e maior consumo de conteúdo político pelas redes sociais.
Mesmo aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva é frequentemente apontado por aliados como uma liderança de forte energia política e retórica. Ainda assim, o desafio da comunicação com as novas gerações tem sido um dos temas centrais do atual cenário político.
A comparação com Nikolas Ferreira evidencia justamente a força da direita nas redes, ambiente em que vídeos curtos, linguagem direta e forte apelo emocional têm conquistado espaço entre os jovens.

Juventude longe das ruas
O texto também amplia a reflexão para um fenômeno observado não apenas no Brasil, mas em outros países: o esvaziamento da participação juvenil em manifestações presenciais.
Nos Estados Unidos, por exemplo, análises recentes indicam que protestos e atos públicos vêm reunindo, em média, pessoas mais velhas. O mesmo movimento é observado em países como a Argentina, onde manifestações semanais têm sido lideradas principalmente por idosos.
A leitura é de que fatores como o avanço das redes sociais, o desencanto com partidos políticos, a descrença institucional e até o receio da repressão policial contribuíram para o afastamento dos jovens das ruas.
Historicamente, movimentos estudantis tiveram forte protagonismo na política brasileira. A própria UNE foi peça central em momentos decisivos do país, como o enfrentamento à ditadura militar e mobilizações nacionais ao longo das últimas décadas.
No entanto, a entidade já não possui hoje o mesmo peso de mobilização que marcou gerações anteriores.
Redes sociais e política
O ponto central da discussão, no entanto, não está apenas no fato de Lula usar ou não celular.
A questão levantada é mais profunda: as redes sociais se tornaram o principal ambiente de disputa política entre os jovens, substituindo em grande parte os espaços tradicionais de debate e mobilização.
Nesse cenário, o celular deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a representar uma nova forma de conexão, influência e construção de narrativa pública.
Para analistas, a simples adoção de um celular pelo presidente não resolveria, por si só, o desafio de reconquistar a juventude.
O problema estaria na mudança do comportamento social e político das novas gerações, hoje muito mais conectadas digitalmente do que engajadas fisicamente.
A discussão levantada pela presidente da UNE amplia um debate que deve seguir em evidência: como o governo federal e as lideranças políticas pretendem restabelecer pontes com a juventude em um ambiente dominado por algoritmos, vídeos curtos e comunicação instantânea.
Mais do que presença digital, o desafio parece estar em devolver sentido à participação política dos jovens, seja nas redes, seja nas ruas.



