Navios sujeitos a sanções internacionais conseguiram atravessar o Estreito de Ormuz com destino ao Irã, mesmo diante do bloqueio imposto pelos Estados Unidos durante a atual escalada de tensões no Oriente Médio. Dados de monitoramento marítimo divulgados na quinta-feira indicam movimentações recentes que colocam em dúvida a eficácia total da restrição americana sobre uma das rotas mais estratégicas do comércio global de petróleo.
De acordo com sistemas de rastreamento, pelo menos dois navios cargueiros sancionados navegaram pelo estreito nos últimos dias em direção a portos iranianos, contrariando o bloqueio estabelecido por Washington após o fracasso das negociações para conter o conflito na região, que já se estende por quase sete semanas.
O movimento ocorre em um cenário de forte redução no fluxo marítimo. Nos dois dias anteriores, apenas um número limitado de embarcações havia cruzado o estreito, refletindo o impacto direto da restrição imposta pelos Estados Unidos. O comando militar americano informou que, após 72 horas de fiscalização, 14 embarcações retornaram para cumprir a ordem de bloqueio. No entanto, o comunicado não confirmou se todas as tentativas de acesso a portos iranianos foram efetivamente impedidas.

Entre os casos monitorados está o porta-contêineres Zaynar 2, também sob sanções, que navegou pelo estreito em direção ao Golfo, com destino indicado para a Ilha de Larak, próxima ao porto de Bandar Abbas. O último sinal do navio foi registrado já na área iraniana. Outro cargueiro, o Neshat, seguiu trajeto semelhante ao longo da costa do Irã e foi localizado ancorado a cerca de 16 quilômetros de Bandar Abbas.
A movimentação levanta questionamentos entre analistas. Durante uma sessão de análise marítima, o ex-comandante da Marinha Real Britânica, Tom Sharpe, afirmou haver indícios de que algumas embarcações podem estar conseguindo romper o bloqueio. Ele destacou que, do ponto de vista operacional, a execução da restrição não seria complexa, considerando os recursos disponíveis.
Além disso, sistemas de monitoramento identificaram dois superpetroleiros sancionados — RHN e Alicia — cruzando o estreito por rotas autorizadas pelo Irã e avançando em direção ao oeste dentro do Golfo. Ambos registraram como destino “sob encomenda”, sem detalhamento do ponto final. Há indícios de que esse tipo de estratégia, incluindo a declaração de destinos como Iraque, tem sido utilizado para contornar as restrições.

Outras embarcações, como o VLCC Agios Fanouris I e o navio de gás liquefeito G Summer, também aparecem em trajetos semelhantes. Analistas de risco marítimo apontam que alguns navios vinculados ao Irã têm alterado rotas ou interrompido viagens, enquanto outros continuam chegando e saindo de portos iranianos, indicando um cenário dinâmico e imprevisível.
Nas últimas 24 horas, a avaliação predominante entre especialistas é de incerteza. O analista Tomer Raanan resumiu a situação como um ambiente de “confusão”, refletindo a dificuldade em acompanhar e interpretar os movimentos no tráfego marítimo sob as novas restrições.
O bloqueio foi implementado após o colapso das negociações entre Washington e Teerã durante um cessar-fogo temporário de 15 dias, que buscava viabilizar um acordo mais amplo envolvendo o alívio de sanções, a normalização do tráfego no Estreito de Ormuz e a retomada de discussões sobre o programa nuclear iraniano.
Nos primeiros dias da restrição, o monitoramento indicava que apenas embarcações sem ligação com o Irã estavam conseguindo atravessar o estreito sem violar as regras impostas. A maioria dos navios que partiam de portos iranianos retornava antes de deixar a área sob controle americano, reforçando, naquele momento, a efetividade do bloqueio.
Com os novos registros, no entanto, surgem sinais de que parte desse controle pode estar sendo desafiada, em um momento crítico para o comércio global de energia e para a estabilidade na região.


