A ascensão de Augusto Lima, conhecido como Guga, começou a ganhar destaque a partir de um negócio que revolucionou o mercado de crédito consignado na Bahia, colocando-o anos depois no centro de uma das maiores investigações financeiras do país. De origem humilde, como ex-vendedor de abadás, ele construiu uma rede de influência que transita entre governos petistas, lideranças do carlismo baiano e políticos ligados ao PL, tornando-se uma figura-chave nas apurações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro.
A relação entre Lima e o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, tornou-se alvo da Polícia Federal após a nona fase da Operação Compliance Zero. Segundo os investigadores, Wagner teria atuado em Brasília para beneficiar interesses empresariais ligados ao grupo formado por Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Essas investigações tramitam sob a relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto milhares de ações judiciais questionam o funcionamento do Credcesta, produto criado a partir dos ativos adquiridos por Lima na Bahia e que se tornou um dos pilares de sua expansão empresarial.
A origem da trajetória empresarial de Augusto Lima remonta à privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal criada no fim da década de 1970. Após anos de prejuízos bilionários, o governo de Rui Costa decidiu colocá-la à venda. As primeiras tentativas de privatização fracassaram devido ao passivo estimado em cerca de R$ 750 milhões. No entanto, em 2016, o valor mínimo exigido para a compra era de R$ 81 milhões. Dois anos depois, Augusto Lima fechou a aquisição por R$ 15 milhões, com o passivo permanecendo sob responsabilidade do governo estadual.
O principal ativo herdado por Lima não foi a rede de supermercados Cesta do Povo, mas sim o Credcesta, cartão consignado voltado aos servidores públicos estaduais. Um decreto publicado em abril de 2018 ampliou significativamente o alcance do produto, permitindo seu uso em qualquer estabelecimento comercial na modalidade crédito. Além disso, o governo elevou o limite de comprometimento da renda dos servidores, tornando a operação altamente rentável e exclusiva por 15 anos.
Após consolidar o modelo na Bahia, Lima buscou parceiros para expandir o negócio para outros estados. A parceria com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi formalizada em 2019 e se tornou um pilar da expansão do banco no mercado de crédito consignado. Augusto Lima assumiu a posição de CEO de varejo do Master e participou da estratégia de crescimento da instituição em diversos estados, incluindo o Rio de Janeiro.
À medida que seus negócios cresciam, Augusto Lima ampliava sua influência política, tornando-se uma figura de trânsito livre entre grupos historicamente adversários na Bahia. Ele recebeu a Comenda Dois de Julho, principal honraria da Assembleia Legislativa baiana, e lançou a ONG Terra Firme, que reuniu representantes de diferentes correntes políticas.
Com o aprofundamento das investigações sobre o Banco Master, a atuação política de Augusto Lima passou a ser analisada pela Polícia Federal. Os investigadores apontam que Jaques Wagner teria atuado em diferentes pautas de interesse do banco, incluindo discussões relacionadas ao crédito consignado e ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A PF também sustenta que associações controladas por Lima foram utilizadas em uma operação considerada fraudulenta envolvendo uma suposta carteira de crédito avaliada em R$ 12 bilhões negociada com o BRB.
Defesas e desdobramentos das investigações continuam a ser apresentados. Jaques Wagner negou ter recebido recursos ou atuado em favor do Banco Master no Congresso Nacional, enquanto os investigadores apontam supostos benefícios recebidos pelo senador. A defesa de Augusto Lima declarou que o empresário sempre atuou dentro da legalidade e negou qualquer irregularidade. Enquanto as investigações avançam, o Credcesta continua no centro de milhares de disputas judiciais na Bahia, com contratos firmados anteriormente gerando questionamentos e processos movidos por servidores que alegam descontos indevidos e cobranças irregulares.

