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Como as máfias tentam se livrar dos juízes incômodos. Por Moisés Mendes

Moraes mandou o hacker de Araraquara, Walter Delgatti, para o regime aberto com tornozeleira
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Foto: Rosinei Coutinho/STF

Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão e será, depois de cumpridos os prazos para recursos e chicanas protelatórias, mais um foragido da Justiça. Outros terão o mesmo destino e buscarão abrigo fora do Brasil.

A cada condenação no Supremo, se o relator for Alexandre de Moraes, os jornais das corporações irão requentar o debate raso e cansativo envolvendo golpistas alcançados pela Justiça: o ministro, por ser alvo dos criminosos, não pode julgá-los.

E o Supremo responderá, a cada condenação, como acontece agora, que o alvo dos bandidos é o STF, a instituição, e não apenas Moraes. Outro juiz relator dos processos também seria ameaçado por eles. E assim já se esboça como será a vida de Flávio Dino com as investigações das quadrilhas das emendas parlamentares.

Dino recebe ameaças virtuais e presenciais e ouviu de funcionária de uma companhia aérea, no aeroporto: “É melhor matar do que xingar”. Dependendo do que acontecer nas eleições de outubro, Dino passará a ouvir a mesma frase de quem manda matar e de quem se encarrega de executar a ordem.

Foi o que quase aconteceu com Alexandre de Moraes e o plano dos kids pretos comandados pelo general Mario Fernandes. Moraes seria assassinado por militares que só não levaram a ideia adiante por incompetência, mas muito mais por covardia.

A insistência com que a grande imprensa tenta desqualificar Moraes – como faz de novo nos jornais dessa quinta-feira – é a prova da cumplicidade com essas ameaças. Na Itália, vamos relembrar, as máfias se livraram dos juízes dando ordens para que fossem assassinados.

Aqui, Mário Fernandes falhou ao cumprir a missão para que Lula, Moraes e Alckmin fossem mortos. Mas as máfias italianas, mais competentes, conseguiram tirar dois juízes das investigações e processos que sofriam nos anos 90 pela bravura muito mais dos magistrados do que do sistema de Justiça.

O juiz Giovanni Falcone foi morto no dia 23 de maio de 1992. Pouco depois, em 19 de julho, mataram seu colega Paolo Borsellino. Porque os dois representavam a capacidade do Judiciário de enfrentar as máfias.

máfias
Os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Foto: Divulgação/Arquivo

Os mafiosos queriam matar Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Não tinham interesse em nenhum outro juiz. Queriam os dois que foram assassinados. Porque os magistrados iriam pegá-los. Os juízes eram a Justiça.

Mafiosos clássicos, como os italianos, e mafiosos genéricos e golpistas agrupados em facções políticas, como os brasileiros, querem se livrar dos que os enfrentam com destemor.

Por isso querem pegar Alexandre de Moraes. Ele incomoda os chefes do bolsonarismo e só existe como incômodo porque é o STF atuando contra criminosos poderosos. Não é um justiceiro avulso.

A grande imprensa que dá destaque à falsa controvérsia sobre a atuação de Moraes, ao invés de exaltar a condenação histórica do primeiro filho do chefe da organização criminosa, é cúmplice dos que tentam se livrar do ministro.

Os bandidos bolsonaristas querem pegar Moraes há muito tempo e agora indicam, com recados, que também pedem a cabeça de Flávio Dino. E os jornalões se divertem com a ‘polêmica’ legalista sobre a suspeição do juiz.

Já está provado, pelo entendimento de polícia, promotores, procuradores e juízes, que o bolsonarismo é uma estrutura montada a partir de uma base familiar com feições mafiosas. E por isso agem como máfia, como já observou o jurista Wálter Maierovitch.

Essa família que ameaça Moraes, porque o juiz não recua, chegou a criar um enclave americano para atacar o inimigo. Qualquer aprendiz de qualquer área, e não apenas do Direito, sabe que o objetivo era tirá-lo da relatoria dos casos envolvendo golpistas, mafiosos e milicianos ligados aos Bolsonaros.

E a grande imprensa se dedica, em nome do debate e da controvérsia, a reforçar a estratégia dos Bolsonaros. Por cumplicidade com as vozes que, a pretexto da discordância, fortalecem os argumentos e as ações criminosas da família.

Folha, Estadão e Globo escondem a relevância da condenação de Eduardo, no contexto da resistência política da família, para destacar as suspeitas sobre Alexandre Moraes. Serão cobrados por tudo o que acontecer com a continuidade e o agravamento da perseguição ao ministro.