Campos dos Goytacazes iniciou oficialmente a discussão sobre um dos maiores orçamentos de sua história. A proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2027 apresentada pelo governo do prefeito Frederico Paes projeta uma receita total de aproximadamente R$ 3,05 bilhões, valor que servirá como base para a elaboração da futura Lei Orçamentária Anual (LOA).
Os números apresentados durante audiência pública realizada nesta semana revelam um cenário que vai além dos anúncios institucionais. Uma análise realizada pelo Expresso Rio com base nos dados divulgados pelo governo municipal e em documentos oficiais de planejamento aponta que grande parte dos recursos previstos continuará concentrada nas despesas obrigatórias da administração pública, enquanto os investimentos diretos em obras e expansão urbana representam uma parcela significativamente menor do orçamento.
Raio-X do orçamento de 2027
Os valores divulgados pelo município permitem uma primeira fotografia da distribuição dos recursos públicos previstos para o próximo exercício financeiro.
Tabela 1 — Principais números apresentados na LDO 2027
| Área | Valor Previsto | Participação no Orçamento |
|---|---|---|
| Orçamento Total | R$ 3,05 bilhões | 100% |
| Pessoal e Encargos | R$ 1,48 bilhão | 48,5% |
| Saúde | Mais de R$ 1 bilhão | 32,8% |
| Infraestrutura | R$ 105 milhões | 3,4% |
Os números evidenciam que praticamente um em cada dois reais arrecadados pelo município deverá ser destinado ao pagamento de salários, aposentadorias, pensões e encargos relacionados ao funcionalismo público.
Embora o gasto com pessoal seja uma obrigação legal de qualquer administração pública, o percentual chama atenção pelo espaço reduzido que sobra para investimentos estruturantes capazes de gerar transformações permanentes na cidade.
Comparação mostra peso da máquina pública
Uma análise proporcional do orçamento permite visualizar com mais clareza como os recursos deverão ser distribuídos.
Gráfico Comparativo (Participação estimada no orçamento)
Pessoal e Encargos ████████████████████████████████████████ 48,5%
Saúde ██████████████████████████ 32,8%
Infraestrutura ██ 3,4%
Demais áreas ████████████ 15,3%
O cenário indica que as despesas obrigatórias continuarão exercendo forte pressão sobre as contas municipais, fenômeno observado em diversos municípios brasileiros que dependem simultaneamente de receitas próprias e de transferências externas.
Programas anunciados para 2027 já estavam previstos anteriormente
Outro aspecto identificado durante a análise documental envolve a origem das ações apresentadas pelo governo como prioridades para o próximo ano.
Segundo os documentos consultados pelo Expresso Rio, diversas iniciativas destacadas durante a audiência pública já constam no Plano Plurianual (PPA) 2026-2029, aprovado pela Câmara Municipal e sancionado no final de 2025.
Entre as ações encontradas no planejamento plurianual estão:
- Implantação da Guarda Municipal Armada;
- Treinamento e qualificação operacional de agentes;
- Ampliação da infraestrutura pública municipal;
- Abertura e conservação de vias urbanas e rurais;
- Pavimentação asfáltica;
- Construção de sistemas de drenagem;
- Expansão das ações voltadas à segurança pública.
Os registros demonstram que parte significativa das metas apresentadas para 2027 integra um planejamento de médio prazo que já havia sido estabelecido anteriormente pela administração municipal.
Entre os números apresentados, um dos pontos que mais chamam atenção é a diferença entre os recursos destinados à manutenção da máquina pública e aqueles voltados para investimentos em infraestrutura.
Os cerca de R$ 105 milhões previstos para infraestrutura representam pouco mais de 3% do orçamento total estimado para 2027.
É justamente nesse grupo que costumam estar inseridas obras de pavimentação, drenagem, recuperação de vias, construção de equipamentos públicos e melhorias urbanas capazes de gerar impacto direto na qualidade de vida da população.
A comparação deverá alimentar discussões entre vereadores, especialistas em contas públicas e representantes da sociedade civil durante a tramitação da LDO e, posteriormente, da LOA.
Segurança pública já apresenta sinais de execução
A análise dos atos administrativos publicados recentemente também mostra que algumas das ações apresentadas para os próximos anos já começaram a ser executadas.
Documentos oficiais publicados pela administração municipal registram procedimentos relacionados à aquisição de equipamentos e munições para a Guarda Civil Municipal, além de medidas voltadas ao fortalecimento operacional da corporação.
Os atos reforçam que parte das iniciativas relacionadas à Guarda Armada e ao reforço da segurança urbana já se encontra em fase de implementação, independentemente da aprovação do orçamento de 2027.
De onde virão os R$ 3 bilhões
Segundo os dados apresentados durante a audiência pública, a previsão de arrecadação para 2027 será sustentada por uma combinação de receitas próprias e transferências constitucionais.
- Royalties do petróleo e participações especiais;
- Fundo de Participação dos Municípios (FPM);
- Fundeb;
- ICMS;
- IPVA;
- IPTU;
- ISS;
- Transferências estaduais e federais;
- Taxas e demais receitas próprias.
Entre essas fontes, os royalties do petróleo continuam exercendo papel estratégico nas finanças municipais. Ao longo das últimas décadas, os recursos provenientes da exploração petrolífera ajudaram a financiar parte significativa das despesas públicas de Campos dos Goytacazes, tornando a arrecadação do município diretamente influenciada pelas oscilações do setor energético.
No entanto, os números apresentados pela LDO representam apenas uma projeção inicial. O verdadeiro destino dos recursos públicos será conhecido durante a elaboração e votação da Lei Orçamentária Anual (LOA), instrumento que detalha quanto cada secretaria, programa e ação governamental efetivamente receberá.
Será nessa etapa que vereadores, órgãos de controle e a própria população poderão acompanhar com maior precisão quanto será destinado para obras, saúde, educação, segurança, assistência social e manutenção da máquina pública.
A análise dos dados já disponíveis indica que o principal desafio para 2027 não será apenas arrecadar mais de R$ 3 bilhões, mas transformar essa capacidade financeira em resultados concretos para a população. Em um orçamento onde as despesas obrigatórias consomem parcela expressiva dos recursos, a discussão passa a girar em torno de uma pergunta central: quanto desse dinheiro chegará efetivamente às ruas em forma de obras, investimentos e melhorias nos serviços públicos?
Com a futura divulgação dos anexos completos da LDO e, posteriormente, da Lei Orçamentária Anual, será possível medir não apenas o tamanho do orçamento municipal, mas principalmente a distância entre o planejamento apresentado pelo governo e a execução efetiva das políticas públicas que impactam diretamente a vida dos mais de 500 milhões moradores de Campos dos Goytacazes.
Mais do que uma peça técnica de planejamento, a LDO 2027 inaugura um debate sobre prioridades, transparência e eficiência na aplicação dos recursos públicos. Afinal, em um orçamento bilionário, a principal cobrança da sociedade não costuma ser quanto o município arrecada, mas quanto consegue transformar arrecadação em resultados concretos para a população.

