A importação de fertilizantes da Rússia pelo Brasil ganhou força nos últimos meses, impulsionada por tensões geopolíticas no Oriente Médio e mudanças no cenário global de insumos agrícolas. Segundo informações de levantamento divulgado pela agência Sputnik, o país movimentou cerca de US$ 331 milhões (aproximadamente R$ 1,7 bilhão) em compras do produto apenas em março.
O aumento ocorre em meio ao fechamento do estreito de Ormuz, considerado uma das principais rotas comerciais do mundo, após o início de ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Esse cenário impactou diretamente o fluxo internacional de fertilizantes e levou o Brasil a buscar alternativas para garantir o abastecimento interno.
De acordo com especialistas do setor logístico, o movimento reforça a dependência externa do país, mas também abre espaço para reposicionamento estratégico nas relações comerciais internacionais.
Dependência externa preocupa setor agrícola
De acordo com apuração, o Brasil importa atualmente cerca de 88% dos fertilizantes utilizados no agronegócio, um dado que acende alerta em momentos de instabilidade global. O diretor de relações institucionais da AGL Cargo, Jackson Campos, avalia que esse nível de dependência representa um risco significativo para a segurança produtiva do país.
Segundo ele, em situações de conflito internacional ou interrupções logísticas, como a registrada recentemente no Oriente Médio, o impacto pode ser imediato na cadeia agrícola. Ainda assim, o fortalecimento das relações comerciais com a Rússia tem garantido uma resposta mais rápida diante dessas oscilações.
Campos destaca ainda que o cenário atual pode servir como aprendizado para o Brasil, especialmente no que diz respeito à logística e à ampliação da capacidade industrial no setor de fertilizantes.
Relação com a Rússia ganha relevância estratégica
O avanço nas importações também é visto como um movimento diplomático. Conforme especialistas ouvidos, o estreitamento das relações com a Rússia pode representar não apenas segurança no fornecimento, mas também novas oportunidades comerciais e tecnológicas.
O economista Alexis Toríbio Dantas aponta que decisões adotadas em gestões anteriores impactaram a estrutura produtiva nacional. Segundo ele, durante o governo de Jair Bolsonaro, parte da capacidade de produção de fertilizantes foi reduzida, com maior participação da iniciativa privada no setor.
Ainda de acordo com o economista, esse contexto contribuiu para o aumento da dependência externa, tornando o Brasil mais vulnerável a crises internacionais.
Produção nacional volta ao centro do debate
Diante do cenário atual, especialistas defendem a retomada de investimentos na produção nacional de fertilizantes como forma de reduzir riscos e fortalecer a autonomia do país. No entanto, há entendimento de que, mesmo com essa estratégia, a importação continuará sendo uma alternativa relevante.
Nesse sentido, o uso das importações também pode ser visto como ferramenta diplomática. Conforme análise de especialistas, manter acordos comerciais sólidos com países fornecedores pode ampliar a influência brasileira no cenário internacional.
Ao mesmo tempo, o setor produtivo segue atento às oscilações do mercado global, principalmente diante das incertezas geopolíticas que ainda afetam rotas comerciais estratégicas.
O governo brasileiro ainda não detalhou oficialmente eventuais mudanças na política de fertilizantes, mas o tema vem ganhando espaço nas discussões econômicas e agrícolas do país.
Enquanto isso, produtores rurais acompanham com atenção os desdobramentos, já que o fornecimento regular desses insumos é essencial para garantir a produtividade das safras ao longo do ano.


