A visita ao Brasil da líder religiosa e coach cristã nigeriana Obii Pax-Harry, que teve na agenda um encontro com a então candidata ao Senado pelo Distrito Federal Michelle Bolsonaro (PL), trouxe novamente ao debate a chamada teologia da dominação, ou teologia do domínio. Segundo especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, a corrente está relacionada a uma interpretação religiosa que busca utilizar princípios bíblicos como fundamento para a organização da sociedade e para a atuação política.
De acordo com o sociólogo Maxwell Teixeira, a teologia do domínio não corresponde a uma igreja específica nem a uma organização única. O termo é utilizado como uma categoria analítica para identificar uma corrente de pensamento segundo a qual a Bíblia deve orientar a compreensão e a estruturação da sociedade.
Teixeira aponta ainda o chamado desencantamento político como um dos fatores que podem contribuir para a difusão dessas ideias. Na avaliação apresentada à reportagem, a formação cristã de parte significativa da população brasileira, em alguns casos associada a leituras fundamentalistas das escrituras, cria um ambiente no qual determinadas interpretações religiosas podem adquirir maior influência no debate público.
O pastor e teólogo Sergio Dusilek, por sua vez, classifica a teologia da dominação como uma radicalização do fundamentalismo cristão estadunidense. Em sua análise, essa corrente teria como objetivo uma transformação profunda da relação entre religião e poder, descrita por ele como uma espécie de “sharia gospel”.
Dusilek também relaciona esse fenômeno ao aumento da polarização política. Segundo o teólogo, em ambientes marcados pelo fundamentalismo, divergências em relação às convicções religiosas podem ser interpretadas pelos seguidores mais radicalizados como uma espécie de confronto espiritual, o que dificulta o diálogo político.
Outro ponto destacado pelo teólogo é o peso crescente do pensamento religioso nas disputas políticas. Segundo Dusilek, caso a concepção de colocar a Bíblia acima da Constituição conseguisse prevalecer, os efeitos poderiam ultrapassar a questão da liberdade religiosa e alcançar áreas como a produção científica.
As análises apresentadas pelos especialistas não significam que todo cristão ou todo grupo religioso compartilhe dessas posições. A própria expressão “teologia do domínio” é apresentada por Teixeira como uma categoria analítica, e as interpretações sobre sua influência política são objeto de debate entre pesquisadores e representantes religiosos.




