O transporte de petróleo por meio de novos oleodutos atravessando a Síria dificilmente seria capaz de substituir, no curto prazo, a importância estratégica do Estreito de Ormuz para o mercado internacional de energia. A avaliação é do especialista turco em energia Ali Arif Aktürk, ex-dirigente da estatal turca BOTAŞ, que analisou a possibilidade de criação de rotas terrestres ligando campos petrolíferos iraquianos ao litoral mediterrâneo da Síria.
As discussões ganharam força após declarações do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, segundo quem investimentos em infraestrutura poderiam reduzir significativamente a dependência do Estreito de Ormuz nos próximos anos. Reportagem da Reuters registrou Bessent afirmando que a passagem poderia perder relevância estratégica em cerca de dois anos, diante da expansão de rotas alternativas. Projetos envolvendo Iraque, Síria e empresas internacionais estão, porém, ainda em fases preliminares de estudos técnicos e financeiros.
Segundo Aktürk, uma das possibilidades seria a construção de um novo sistema de oleodutos atravessando território sírio. O especialista argumenta que uma obra desse porte poderia levar entre quatro e cinco anos, período durante o qual a situação política e militar do Oriente Médio pode sofrer mudanças substanciais. Informações divulgadas em agosto sobre um projeto entre Iraque e Síria também indicam prazo de aproximadamente quatro anos para implantação de uma nova rota, com investimentos estimados em pelo menos US$ 15 bilhões.
Outra alternativa seria recuperar a histórica ligação Kirkuk–Baniyas, construída para transportar petróleo iraquiano até o porto sírio de Baniyas, no Mediterrâneo. A infraestrutura, inaugurada na década de 1950, passou por sucessivas interrupções e sofreu danos ao longo de décadas de disputas políticas e conflitos regionais. Aktürk avalia que os custos de recuperação, modernização e manutenção tornariam a opção economicamente pouco atraente, especialmente diante dos riscos de segurança enfrentados por investimentos de grande porte na região.
As cifras relacionadas aos projetos, entretanto, devem ser tratadas como estimativas, e não como custos definitivos. Enquanto Aktürk relaciona valores elevados à eventual reconstrução e manutenção da infraestrutura existente, outras informações publicadas sobre os estudos em andamento apontam investimento de pelo menos US$ 15 bilhões para um novo sistema de oleodutos entre Iraque e Síria. O desenho final, financiamento, capacidade e cronograma do projeto ainda dependem de estudos de viabilidade e decisões políticas e empresariais.
O analista turco também considera que uma rota síria poderia competir com o corredor que liga o Iraque ao porto turco de Ceyhan. Atualmente, Bagdá e Ancara discutem a continuidade e ampliação da cooperação envolvendo o oleoduto Iraque–Turquia. Em julho, fontes turcas disseram à Reuters que havia interesse em elevar a utilização dessa infraestrutura, cuja capacidade instalada chega a aproximadamente 1,5 milhão de barris por dia.
Mesmo com novos projetos, o Estreito de Ormuz permanece um dos pontos mais estratégicos do comércio mundial de energia. Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) mostram que cerca de 20,9 milhões de barris por dia de petróleo e derivados passaram pela região no primeiro semestre de 2025, volume equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo. A própria agência americana avalia que as rotas alternativas existentes conseguem absorver apenas uma parte desse fluxo, indicando que substituir integralmente Ormuz exigiria uma transformação de infraestrutura muito mais ampla.




