Integrantes da ala mais conservadora ligada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estariam articulando em Washington uma tentativa de retomar sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em meio à reta final das eleições brasileiras de 2026. A informação foi publicada nesta quinta-feira (3) pelo ICL Notícias, que atribui a movimentação a parlamentares republicanos, aliados do governo norte-americano e interlocutores ligados ao Departamento de Estado. Não há, até o momento, confirmação oficial da Casa Branca ou do Departamento do Tesouro de que uma nova sanção tenha sido decidida.
Segundo a reportagem, documentos relacionados às mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro e que mencionam Moraes teriam sido encaminhados a autoridades dos Estados Unidos por interlocutores bolsonaristas. O material passou a ser divulgado após informações da investigação sobre o Banco Master serem tornadas públicas no Brasil. A existência de contatos entre Vorcaro e Moraes tem provocado questionamentos públicos sobre a relação entre os dois, mas o conteúdo das mensagens, por si só, não constitui prova de prática criminosa por parte do ministro, e eventuais responsabilidades dependem de apuração pelas autoridades competentes.
De acordo com a apuração do ICL, setores políticos norte-americanos avaliariam que o novo material poderia fortalecer argumentos para convencer Trump a voltar a adotar medidas contra Moraes. A reportagem relata ainda que integrantes desse grupo enxergariam uma eventual nova rodada de sanções como capaz de produzir repercussões políticas no Brasil. Essa interpretação, porém, é atribuída a fontes ouvidas pelo veículo e não comprova a existência de uma operação oficial do governo dos Estados Unidos destinada a interferir ou desestabilizar o processo eleitoral brasileiro.
Moraes já foi alvo da Lei Magnitsky
Alexandre de Moraes foi incluído pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos na lista de sanções da Global Magnitsky em 30 de julho de 2025. Na ocasião, o governo Trump acusou o ministro de violações relacionadas a direitos humanos, detenções consideradas arbitrárias e restrições à liberdade de expressão. As acusações representavam a posição oficial do governo norte-americano e foram contestadas no Brasil.
As medidas não permaneceram em vigor. Em 12 de dezembro de 2025, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro, retirou oficialmente Moraes da lista de pessoas sancionadas. Também foram removidos da relação Viviane Barci de Moraes e o Instituto Lex, que haviam sido alcançados posteriormente pelas medidas norte-americanas.
A possibilidade de retomada das sanções voltou ao debate recentemente. Em agosto, o Financial Times informou, citando pessoas familiarizadas com as discussões em Washington, que integrantes do governo Trump analisavam novamente medidas contra Moraes. Entre os episódios avaliados estaria uma decisão envolvendo o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida. A reportagem apontou que críticos do magistrado nos Estados Unidos continuam usando decisões relacionadas à liberdade de expressão como argumento para pressionar por uma nova ofensiva diplomática.
Movimentação ocorre a um mês das urnas
O momento político aumenta a repercussão das discussões. O primeiro turno das eleições brasileiras está marcado oficialmente para 4 de outubro de 2026, enquanto um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. Assim, qualquer iniciativa diplomática de grande impacto envolvendo autoridades brasileiras seria adotada em plena fase decisiva da campanha presidencial.
O ICL afirma ainda que teria sido encomendado um levantamento com cerca de 2 mil brasileiros para avaliar a eventual reação da opinião pública a novas sanções contra Moraes. Segundo o veículo, fontes envolvidas nas discussões teriam classificado uma eventual medida como uma possível “ação decisiva”. Não foram apresentados, porém, na publicação, elementos públicos suficientes para confirmar de forma independente quem encomendou a pesquisa, sua metodologia completa ou se os resultados efetivamente influenciarão uma decisão da Casa Branca.
Ao mesmo tempo, Trump declarou na quarta-feira (2) que os Estados Unidos mantêm uma “boa relação” com o Brasil, embora não tenha mencionado diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A declaração demonstra que, apesar das pressões relatadas em Washington, ainda não existe publicamente uma posição definitiva do governo norte-americano sobre a retomada das sanções.
O episódio tende a ampliar o debate sobre os limites da atuação de governos estrangeiros durante períodos eleitorais. Até que exista uma decisão formal das autoridades dos Estados Unidos, entretanto, a possível retomada das sanções contra Moraes deve ser tratada como uma hipótese em discussão e uma articulação atribuída a setores políticos norte-americanos, e não como uma medida já aprovada ou como prova de interferência externa no processo eleitoral brasileiro.




