Um levantamento realizado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) identificou que 8,5% das gestantes atendidas apresentaram consumo recente de maconha ou cocaína ao longo de 2025.
Os dados foram obtidos a partir de exames de urina realizados pouco antes do parto e indicam um cenário que preocupa especialistas, tanto pelo impacto na saúde das mães quanto no desenvolvimento dos recém-nascidos.
Ao todo, foram analisados 2.754 testes no período, com 124 resultados positivos para cocaína, o equivalente a 4,5%, e 112 para maconha, cerca de 4% das gestantes. O monitoramento integra uma pesquisa iniciada em 2022, que já acumula quase 23 mil exames e mostra tendência de crescimento ao longo dos anos.
Crescimento ao longo dos anos
Os números indicam aumento no consumo de substâncias durante a gestação. Em 2022, o percentual total era de 6,8%, sendo 2,9% para cocaína e 3,9% para maconha. Desde então, a proporção de casos positivos evoluiu, com destaque para o avanço do uso de cocaína, que passou a superar o de maconha no período mais recente.
A análise foi conduzida por equipes multidisciplinares, com participação de áreas como pediatria, obstetrícia, serviço social e psiquiatria, além de acompanhamento de um comitê de bioética. A intenção é ampliar a discussão científica sobre o tema.
Subnotificação no pré-natal
A investigação também aponta falhas na abordagem do tema durante o pré-natal. Segundo a coordenadora de Saúde Mental, Lisia von Diemen, a testagem por urina não faz parte da rotina recomendada pelas autoridades de saúde, sendo mais comum a abordagem por meio de perguntas diretas às pacientes.
“Mas vemos que a investigação no pré-natal é pouco feita e, quando é realizada, costuma ser sub-reportado porque as mulheres têm um constrangimento de falar, e às vezes o profissional não tem um treinamento adequado para fazer essa pergunta. Nosso levantamento é algo inédito no país e até em algumas situações no mundo”, afirma.
De acordo com a especialista, fatores como vergonha, estigma e falta de preparo profissional contribuem para a subnotificação do uso de substâncias durante a gravidez.
Motivação para o protocolo
A criação do protocolo de testagem surgiu a partir de situações clínicas complexas. Médicos passaram a observar casos de bebês e mães com sintomas de abstinência ou intoxicação sem causa aparente, o que levava a investigações extensas e, muitas vezes, desnecessárias.
“Começamos a ter muitos problemas com gestantes que começavam a entrar em síndrome de abstinência durante o puerpério, ou com bebês com sintomas inexplicáveis que iam para a UTI (unidade de terapia intensiva), investigava-se e depois descobrimos que era efeito ou ainda da substância ou de abstinência. Então ficávamos sabendo apenas na complicação”, relata Lisia.
A partir disso, o exame passou a ser oferecido às pacientes de forma voluntária, alcançando adesão de cerca de 95%.
Impactos no atendimento
Com a identificação precoce do consumo, a equipe passou a adotar medidas específicas para reduzir riscos aos recém-nascidos. Entre elas, a suspensão temporária da amamentação em casos de intoxicação recente.
Também foi possível evitar procedimentos invasivos desnecessários em bebês, como exames para investigar infecções, quando os sintomas eram, na verdade, decorrentes da exposição a substâncias.
“A intenção é auxiliar as mães a entender o problema e estimular o tratamento precoce, visando o bem-estar e a saúde de toda a família”, afirmou o professor Leandro Meirelles Nunes.
Riscos para mães e bebês
Os efeitos do consumo de drogas durante a gestação são amplos e podem comprometer o desenvolvimento da criança. No caso da maconha, há associação com parto prematuro, baixo peso ao nascer e aumento de riscos à saúde do bebê.
Já a cocaína pode antecipar o parto e está relacionada a complicações como descolamento de placenta, alterações no crescimento fetal e maior probabilidade de problemas cognitivos e comportamentais ao longo da vida.
Além disso, o consumo de álcool — identificado por meio de questionários — também preocupa. Cerca de 10,4% das gestantes foram classificadas em comportamento de risco, embora especialistas alertem que o número pode ser subestimado.
Desafios no tratamento
Apesar dos avanços no diagnóstico, especialistas destacam a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas ao acompanhamento dessas mulheres, especialmente no pós-parto.
“Muitas mães não procuram ou não aderem ao tratamento por medo do estigma associado ao uso de substâncias por mulheres, em particular na gestação e puerpério”, afirma Lisia.
Entre as propostas está a criação de serviços especializados, com abordagem diferenciada para gestantes e puérperas, além do fortalecimento da rede de atenção psicossocial.
O estudo também indica que a identificação precoce pode reduzir custos do sistema de saúde, ao evitar internações em unidades intensivas e permitir intervenções mais rápidas e eficazes.


