Uma nova pesquisa sobre a estrutura interna de Marte identificou evidências de uma expressiva diferença térmica entre os hemisférios do planeta. Segundo o estudo, publicado na revista científica Nature, o manto localizado sob as terras altas do hemisfério sul pode apresentar temperaturas entre 200 °C e 400 °C superiores às estimadas para regiões correspondentes do hemisfério norte. Os resultados reforçam a hipótese de que as diferenças entre as duas metades de Marte não estão restritas à superfície e podem se estender profundamente pelo interior do planeta.
O trabalho foi liderado pelo pesquisador Alexander Berne, atualmente vinculado à Universidade do Arizona, e reuniu cientistas de diferentes instituições. A equipe analisou dados de rastreamento das sondas Mars Global Surveyor, Mars Odyssey e Mars Reconnaissance Orbiter, todas da NASA. A partir dessas informações, os pesquisadores estudaram pequenas variações temporais no campo gravitacional marciano provocadas pela interação gravitacional com o Sol.
Para investigar essas diferenças, os cientistas empregaram uma abordagem chamada tomografia de maré, capaz de utilizar a resposta gravitacional do planeta para obter informações sobre estruturas localizadas abaixo da crosta. Conforme o artigo, alguns componentes do campo gravitacional variável de Marte apresentaram diferenças de até 300% em relação ao que seria previsto para um planeta com interior perfeitamente simétrico. Os modelos elaborados pela equipe indicam uma variação superior a 20% na rigidez efetiva do manto, compatível com a existência da anomalia térmica observada no hemisfério sul.
Os pesquisadores avaliam que as temperaturas mais elevadas podem favorecer, em determinadas regiões, a ocorrência de fusão parcial de materiais abaixo da litosfera, embora isso não signifique necessariamente que Marte tenha atualmente vulcões em erupção. O fenômeno poderá ajudar os cientistas a compreender melhor episódios de atividade vulcânica, a evolução térmica e outras características geológicas observadas ao longo da história do planeta.
A descoberta também chama atenção por acompanhar aproximadamente a chamada dicotomia crustal de Marte. O hemisfério norte é caracterizado predominantemente por extensas planícies de menor altitude, enquanto o sul possui terrenos mais elevados, acidentados, antigos e densamente marcados por crateras. Segundo o estudo, existe ainda uma diferença média estimada em cerca de 25 quilômetros na espessura da crosta entre essas regiões, embora modelos alternativos também considerem diferenças de densidade para explicar parte dessa assimetria.
Ainda não existe uma explicação definitiva para a origem da anomalia. Entre as possibilidades examinadas pelos autores estão processos de convecção regional no manto e o efeito de isolamento térmico provocado pela crosta mais espessa das terras altas do sul, que poderia ter preservado temperaturas maiores durante bilhões de anos. Os cientistas também discutem processos geodinâmicos antigos relacionados à formação da própria dicotomia marciana. Essas interpretações permanecem como hipóteses científicas a serem confrontadas com novos dados e modelos.
Além de oferecer novas pistas sobre a evolução geológica de Marte, a pesquisa pode contribuir para estudos sobre o período em que o planeta apresentou condições ambientais distintas das atuais, inclusive com presença de água líquida em sua superfície. Isso, porém, não representa evidência da existência de vida em Marte. O resultado amplia o conhecimento sobre a dinâmica interna do planeta e poderá orientar futuras investigações sobre como calor, vulcanismo, água e transformação da crosta estiveram relacionados ao longo da história marciana.




