Documentos apontam que Vorcaro bancou modelos com jatinhos e hotéis de luxo para bajular elite política

Expresso Rio
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Um conjunto de relatos, documentos e dados reunidos por investigações e reportagens aponta que eventos de alto padrão organizados por Daniel Vorcaro, à época à frente do Banco Master, integravam uma estratégia de relacionamento com autoridades públicas e figuras influentes. As festas, realizadas no Brasil e no exterior, incluíam a presença de mulheres brasileiras e estrangeiras, além de uma estrutura sofisticada de logística e produção.

O material analisado por reportagem da Folha de S. Paulo reúne entrevistas, registros em redes sociais e documentos da Polícia Federal, que identificaram ao menos 20 mulheres participantes desses encontros, sendo que parte delas mantinha perfis públicos. Procuradas, elas não comentaram sobre os eventos.

Entre as participantes, havia estrangeiras de países como Rússia, Ucrânia, Lituânia, Holanda, México e Venezuela, além de brasileiras que, segundo relatos, aceitaram apoio financeiro para participar das agendas.

Eventos estruturados como estratégia

A dimensão e a organização desses encontros foram descritas por pessoas que frequentaram ou tiveram conhecimento direto das reuniões. Segundo 17 executivos ouvidos, havia planejamento detalhado para garantir que os eventos ocorressem em paralelo a compromissos oficiais, aproveitando a presença de autoridades em viagens e agendas institucionais.

A relevância dessas iniciativas foi mencionada pelo próprio Vorcaro em mensagens trocadas com sua então noiva, Martha Graeff. “Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”.

De acordo com os relatos, a estrutura incluía equipes responsáveis por logística, transporte e hospedagem, além de programação pensada para atender ao perfil dos convidados.

Luxo, viagens e produção internacional

Os eventos envolviam deslocamentos internacionais e hospedagem em locais de alto padrão. Mulheres estrangeiras teriam sido trazidas ao Brasil em voos de primeira classe, permanecendo no país por semanas em hotéis de luxo e residências exclusivas.

A logística incluía também transporte em aeronaves privadas e utilização de estruturas como o aeródromo Terravista, em Trancoso, na Bahia. Em uma das festas realizadas na região, em outubro de 2022, a decoração temática inspirada na Amazônia, apresentações musicais e performances marcaram o encontro, que reuniu convidados ao longo de dias úteis.

O evento acabou ganhando repercussão após registros de danos materiais na propriedade alugada, incluindo quebra de objetos e itens decorativos.

Eventos ligados a grandes agendas e patrocínios

Outro momento de destaque ocorreu durante a semana do Grande Prêmio de Fórmula 1 no Brasil, em 2023. O Banco Master, patrocinador de uma equipe da categoria, teve acesso a áreas exclusivas e utilizou a ocasião para receber convidados.

Na mesma semana, uma festa de Halloween com cerca de 190 participantes foi organizada com orçamento elevado, incluindo serviços personalizados, bebidas premium e equipe dedicada a atender convidados VIP.

Os registros indicam ainda a contratação de serviços internacionais para trazer participantes e atrações, com deslocamentos envolvendo diferentes países.

Pontos fixos e estrutura permanente

Além dos eventos pontuais, havia espaços destinados a encontros recorrentes em São Paulo. Bares exclusivos foram montados em sedes do grupo, e hotéis de luxo passaram a ser utilizados como locais frequentes de recepção.

Segundo relatos, o Fasano do Itaim Bibi contava com áreas reservadas para encontros discretos, enquanto hotéis como Unique e Rosewood eram utilizados para hospedagem de convidadas internacionais.

As administrações dos estabelecimentos informaram que não comentam informações sobre hóspedes.

Investigações e questionamentos legais

Apesar da amplitude das informações reunidas, ainda não há confirmação oficial sobre a participação de autoridades públicas nos eventos, nem evidências conclusivas sobre a conduta adotada durante as festas.

Especialistas, no entanto, apontam possíveis implicações legais caso se comprove a utilização desse tipo de estrutura para obtenção de vantagens indevidas.

“Antigamente, se considerava que corrupção envolvia pagamento de valor financeiro ou entrega de bem material, mas a legislação evoluiu e adotou a interpretação de ‘vantagem indevida’, bem mais abrangente —e oferta de sexo nesse tipo de festa com certeza se enquadra nisso”, diz o advogado Guilherme Fance, gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional no Brasil.

A advogada Luciana Temer também destaca a importância de esclarecer as condições de participação das mulheres envolvidas. “Mulheres adultas podem escolher como fazer sexo, e prostituição não é crime. Mas nesse caso é importante saber se houve ou não a participação de menores de idade, pois sexo com menor de 14 anos é estupro, com meninas de 14 a 18, exploração sexual”.

Além disso, especialistas apontam que, se houver comprovação de intermediação com fins lucrativos, o caso pode configurar crimes como exploração da prostituição.

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