BRB comprou R$ 1,5 bilhão em ativos ligados a Master e Reag mesmo após operação da PF alertar riscos

Expresso Rio
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BRB comprou R$ 1,5 bilhão em ativos ligados a Master e Reag mesmo após operação da PF alertar riscos

O Banco de Brasília (BRB) realizou a aquisição de cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos ligados ao Banco Master e a fundos administrados pela Reag, mesmo após essa estrutura já estar sob investigação da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro. As transações ocorreram em meio à Operação Carbono Oculto, que apurava o uso de fundos da Reag pelo PCC para movimentações ilícitas.

Documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo colunista Demétrio Vecchioli, do portal Metrópoles, mostram que as compras foram aprovadas pelas instâncias internas do banco e executadas antes mesmo da conclusão de pareceres técnicos que alertavam para riscos elevados e semelhanças com estruturas investigadas pela PF.

As operações ocorreram em ritmo acelerado e foram concluídas em 30 de setembro de 2025, a tempo de impactar os balanços do terceiro trimestre tanto do BRB quanto do Master. Na prática, o banco público trocou carteiras consideradas problemáticas do Credcesta por ativos que, à primeira vista, aparentavam maior solidez.

Alertas ignorados em decisões internas

Parecer elaborado em 24 de setembro pela Diretoria de Finanças e Controladoria e pela Superintendência de Operações Financeiras do BRB já indicava preocupação com a operação. O documento destacava que a situação “impunha ao BRB postura ainda mais diligente na condução da proposta“, ressaltando “risco elevado e prazo exíguo” para avaliação dos ativos oferecidos pelo Master.

Apesar dos alertas, as negociações foram aprovadas e concluídas.

As análises também apontavam que muitos dos ativos tinham características semelhantes à estrutura de “fundo sobre fundo”, identificada pela Polícia Federal como parte do mecanismo investigado na Carbono Oculto. Essa engenharia financeira acabou associada à posterior liquidação tanto da Reag quanto do próprio Banco Master, em novembro de 2025.

Negócio levou BRB a sociedade indireta com Roberto Justus

Uma das operações envolveu a compra, por R$ 350 milhões, da totalidade das cotas do fundo FIP SH, que detinha participação de 30% na Stellcorp, empresa do setor de casas modulares. Com isso, o BRB passou a ser sócio indireto do empresário Roberto Justus.

O acordo incluiu desconto de 33,25% sobre o valor das ações, mas com uma cláusula que favorecia o Master: em caso de valorização futura, os lucros seriam divididos entre as partes. Já eventuais perdas ficariam integralmente com o BRB.

Relatórios técnicos internos alertaram que o fundo era administrado pela Reag e que o banco ficaria sujeito a uma entidade já investigada. Também foi destacado que o ativo tinha baixa liquidez e dependia de um único investimento, aumentando o risco.

As superintendências classificaram a estrutura como inadequada para fins de controle de lavagem de dinheiro, apontando tratar-se de um fundo exclusivo com um único cotista, o que dificultava a identificação do beneficiário final.

Ativos inflados e avaliação questionada

Outra operação envolveu a aquisição indireta de ativos ligados ao fundo FIP Trevi, que mantinha participação no FIP Novo Bairro. Esse fundo investia em um empreendimento imobiliário em São Paulo.

Pouco antes da transação, a avaliação do patrimônio da empresa responsável pelo projeto foi alterada de forma significativa, saltando de R$ 400 mil para R$ 1,7 bilhão. Com isso, os mesmos ativos passaram a ser negociados por valores muito superiores, permitindo ao BRB adquirir participação que, na nova avaliação, alcançava centenas de milhões de reais.

A mudança de valor levantou questionamentos sobre a consistência dos critérios adotados na precificação dos ativos.

Estrutura complexa e baixa transparência

Também foram destinados R$ 315 milhões à compra de cotas do fundo imobiliário Brazil Realty, que apresentava, segundo análise interna, uma estrutura “altamente concentrada e composta por ativos com baixa visibilidade pública”.

A cadeia de investimentos envolvia múltiplos níveis de fundos, conectando projetos imobiliários na região de Belo Horizonte. Entre os ativos estavam terrenos e empreendimentos com avaliações consideradas elevadas em comparação com referências de mercado.

Em um dos casos, um terreno foi precificado com valor por metro quadrado cerca de quatro vezes superior ao de imóveis similares na mesma região, apesar de apresentar características menos favoráveis, como localização limitada e proximidade com linha férrea.

Aquisição de participação em grupo de restaurantes

O BRB também comprou, por R$ 350 milhões, participação no fundo Strelitzia FIP, que detinha 39% do Grupo Alife Nino, responsável por redes de bares e restaurantes como Nino, Tatu Bola e Boa Praça.

Embora o grupo tenha relevância no setor de alimentação, a avaliação do ativo foi considerada elevada. Como referência, uma participação menor no negócio havia sido precificada anteriormente por valor proporcional inferior.

Nova operação em meio à crise do Master

Mesmo após sinais de deterioração financeira do Banco Master, o BRB aprovou, em novembro de 2025, uma nova rodada de aquisições, totalizando R$ 481 milhões. O próprio relatório interno apontava que a operação era “motivada pela deterioração da condição financeira do Banco Master, que enfrenta risco elevado de inadimplência”.

Nesse pacote, o banco adquiriu cotas adicionais de fundos já envolvidos nas operações anteriores e participações em novos ativos, incluindo fundos ligados a empresas sem histórico operacional consolidado.

Em um dos casos, o fundo investia majoritariamente em uma empresa de capital fechado, criada recentemente e ainda sem atividade efetiva. Segundo análise técnica, havia inconsistências inclusive no endereço cadastral da companhia.

Apesar das incertezas, a operação foi aprovada.

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