Pular para o conteúdo
Saúde

Brasil avança para testar em humanos vacina nacional de mRNA e amplia pesquisas da tecnologia contra o câncer

Por 3 min de leitura Expresso Rio
Expresso Rio
Imagem: Divulgação
Seguir no Google News
Ouvir texto Pronto

O Brasil deu um novo passo no desenvolvimento de tecnologias próprias para a área da saúde com a autorização de um estudo clínico de uma vacina contra a Covid-19 desenvolvida por Bio-Manguinhos/Fiocruz com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que autorizou, em 20 de agosto, o ensaio de Fase 1, destinado principalmente a avaliar a segurança e a resposta imunológica do imunizante em seres humanos. A autorização para pesquisa, porém, não significa que a vacina esteja aprovada para uso na população, já que o produto ainda deverá passar pelas etapas previstas no desenvolvimento clínico.

Segundo a Anvisa, o estudo deverá envolver 90 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, em centros de pesquisa localizados no Rio de Janeiro. O candidato a imunizante utiliza mRNA que codifica a proteína Spike do coronavírus e será avaliado como dose de reforço. O Ministério da Saúde prevê que o recrutamento para a primeira fase comece no primeiro trimestre de 2027. Antes da participação de voluntários, pesquisas envolvendo seres humanos também precisam cumprir as exigências do sistema de ética em pesquisa.

O avanço é considerado estratégico porque a plataforma de RNA mensageiro desenvolvida no país poderá ser utilizada como base para outros projetos. De forma simplificada, a tecnologia utiliza moléculas de RNA para transmitir instruções temporárias às células, permitindo que pesquisadores adaptem essas instruções de acordo com o agente infeccioso ou alvo biológico estudado. O Ministério da Saúde informou ter destinado R$ 210 milhões ao desenvolvimento de plataformas de mRNA no Brasil, envolvendo iniciativas da Fiocruz, Instituto Butantan e estruturas de pesquisa ligadas à UFMG.

Tecnologia também é estudada contra o câncer

Além das vacinas contra doenças infecciosas, pesquisadores brasileiros vêm investigando aplicações de tecnologias baseadas em RNA no combate ao câncer. Entre as frentes citadas pelo Ministério da Saúde estão imunoterapias, vacinas com antígenos tumorais e metodologias baseadas em RNA que poderão futuramente contribuir para o desenvolvimento de terapias celulares, como estratégias relacionadas ao CAR-T. Essas pesquisas, contudo, estão em estágios distintos de desenvolvimento e não representam, neste momento, tratamentos de mRNA contra o câncer já aprovados para uso clínico no país.

Em Minas Gerais, o Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA), ligado à UFMG e à Embrapii, também mantém projetos voltados ao desenvolvimento de vacinas e terapias utilizando RNA. A estrutura recebeu previsão de investimento de R$ 60 milhões ao longo de quatro anos e inclui, entre suas linhas de atuação, pesquisas destinadas a vacinas terapêuticas contra o câncer e imunizantes para doenças como malária.

O potencial da tecnologia é relevante, mas especialistas ressaltam que resultados obtidos em laboratório ou em modelos animais não podem ser automaticamente considerados eficazes ou seguros em seres humanos. Estudos pré-clínicos precisam ser seguidos por pesquisas clínicas controladas e avaliações regulatórias antes que uma eventual terapia possa ser disponibilizada. No caso da vacina contra a Covid-19 da Fiocruz, a autorização concedida pela Anvisa representa justamente o início dessa avaliação em participantes humanos, e não uma autorização para comercialização ou aplicação em larga escala.

O desenvolvimento da plataforma também integra uma estratégia de redução da dependência brasileira de tecnologias importadas. De acordo com o Ministério da Saúde, a capacidade de desenvolver e produzir soluções baseadas em RNA no próprio país pode ampliar a resposta brasileira a futuras emergências sanitárias e permitir a criação de produtos direcionados a problemas de saúde relevantes para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Ouvir texto Pronto