Pular para o conteúdo
Mundo

25 anos depois, como o 11 de Setembro transformou para sempre o esporte e a segurança dos grandes eventos

Expresso Rio
Torres Gêmeas no 11 de setembro - Imagem: Reprodução YouTube
OUVIR NOTÍCIA
Pronto

Durante algumas horas, o esporte simplesmente deixou de importar. Na manhã de 11 de setembro de 2001, os ataques contra as Torres Gêmeas, o Pentágono e a queda de um quarto avião na Pensilvânia colocaram os Estados Unidos em estado de choque. Quase 3 mil pessoas morreram, e competições esportivas que pareciam seguir uma rotina permanente foram interrompidas diante da dimensão da tragédia.

O impacto ultrapassou os calendários. A NFL adiou a rodada seguinte e transferiu os jogos para o fim da temporada, enquanto a Major League Baseball (MLB) suspendeu sua programação e levou a World Series para novembro. Na Europa, a Uefa também adiou partidas: os oito jogos da Liga dos Campeões previstos para 12 de setembro foram remarcados para 10 de outubro, em respeito às vítimas.

Para atletas e equipes, a interrupção representou um conflito que ia muito além da logística. O quarterback do New York Jets, Vinny Testaverde, questionou a realização da rodada seguinte e afirmou que aquele não era o momento para o futebol. Em Nova York, o jogador do New York Giants Tiki Barber também encontrou uma cidade transformada ao chegar ao centro de treinamento e observar a fumaça que vinha da região de Manhattan.

A relação entre esporte e tragédia ficou ainda mais evidente nos dias seguintes. Jogadores como Michael Strahan participaram de iniciativas de apoio a bombeiros, socorristas e pessoas afetadas pelos ataques. O esporte, que havia sido interrompido pelo trauma nacional, passou a exercer também uma função simbólica na tentativa de reconstrução emocional de uma cidade e de um país.

A retomada aconteceu dez dias depois. Em 21 de setembro de 2001, mais de 41 mil pessoas foram ao Shea Stadium para acompanhar o jogo entre New York Mets e Atlanta Braves. Entre os presentes estavam socorristas, familiares de vítimas e torcedores que buscavam recuperar, ainda que por algumas horas, uma sensação de normalidade.

Na oitava entrada, os Mets perdiam por 2 a 1 quando Mike Piazza entrou em cena. O jogador acertou um home run de duas corridas e virou a partida para 3 a 2. A comemoração no estádio foi marcada por choro, abraços e uma forte carga emocional. O lance passou a ser lembrado como um dos momentos esportivos mais simbólicos da reação de Nova York aos atentados.

O home run não poderia reparar as perdas provocadas pelos ataques. Mas, naquele momento, o esporte ofereceu à cidade uma oportunidade de se reunir novamente. A questão deixou de ser apenas quando os campeonatos poderiam voltar e passou a envolver o significado de reunir milhares de pessoas em torno de uma atividade coletiva depois de uma tragédia nacional.

A transformação também atingiu a relação entre esporte e identidade nacional. Bandeiras passaram a ocupar mais espaço nas arenas, enquanto bombeiros, policiais, socorristas e militares ganharam maior destaque em cerimônias esportivas. O hino nacional também passou a carregar uma dimensão ainda mais simbólica em grandes eventos nos Estados Unidos.

A mudança mais permanente, porém, tornou-se visível antes mesmo de o torcedor entrar no estádio. Barreiras, revistas de bolsas, detectores de metais, controle de credenciais e presença reforçada das forças de segurança passaram a integrar de maneira mais evidente a experiência dos grandes eventos esportivos.

Antes de 2001, competições esportivas já possuíam estruturas de segurança. Depois dos atentados, entretanto, a preocupação passou a envolver uma rede mais ampla de prevenção e inteligência. Grandes estádios e arenas passaram a ser considerados dentro de planejamentos que envolviam autoridades locais e federais, controle de multidões, proteção de delegações e avaliação de possíveis ameaças.

O mesmo processo alcançou os megaeventos internacionais. Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e grandes finais esportivas passaram a incorporar de maneira cada vez mais abrangente questões relacionadas à segurança e ao terrorismo. O planejamento deixou de se concentrar apenas em conflitos entre torcedores ou invasões de campo e passou a considerar uma estrutura muito mais ampla de proteção.

Vinte e cinco anos depois, a Copa do Mundo de 2026 oferece uma imagem dessa transformação. Realizado nos Estados Unidos, no Canadá e no México, o Mundial mobilizou uma estrutura de segurança compatível com a dimensão do evento. A existência de protocolos atuais não pode ser atribuída exclusivamente ao 11 de Setembro, mas a experiência de 2001 tornou-se parte importante do contexto para compreender a forma como grandes concentrações públicas passaram a ser protegidas nos Estados Unidos.

O legado daquele dia também pode ser percebido na própria relação entre esporte e sociedade. Antes dos ataques, era possível imaginar o estádio como um espaço relativamente separado das crises políticas, conflitos e tragédias que aconteciam fora dele. Depois de 11 de setembro, essa separação ficou mais difícil de sustentar.

O esporte voltou a acontecer. As ligas retomaram seus calendários, os estádios voltaram a receber multidões e os atletas reassumiram suas rotinas. Mas a experiência havia mudado: segurança passou a fazer parte da organização dos eventos de maneira mais visível, enquanto partidas e atletas também passaram a assumir, em determinados momentos, um papel simbólico diante de acontecimentos históricos.

A imagem de Mike Piazza no Shea Stadium resume parte dessa transformação. Dez dias depois dos atentados, em uma cidade ainda marcada pelo luto, um home run decidiu uma partida de beisebol. O resultado esportivo era simples: vitória dos Mets por 3 a 2. Para milhares de pessoas nas arquibancadas, porém, aquele momento representou algo maior a possibilidade de voltar a se reunir e celebrar depois de uma das maiores tragédias da história dos Estados Unidos.

O esporte não apagou o trauma do 11 de Setembro. Também não interrompeu suas consequências. Mas ajudou a marcar a passagem entre a paralisia provocada pelos ataques e a retomada da vida cotidiana. Vinte e cinco anos depois, a bola voltou a rolar, os campeonatos continuaram e os grandes eventos permaneceram como espaços de encontro. A diferença é que, desde aquela terça-feira de 2001, eles passaram a carregar uma consciência muito maior sobre a fragilidade da normalidade.

11 de Setembro, 25 anos depois, permanece como um marco para o esporte não apenas pelo dia em que os jogos pararam, mas também pela forma como a segurança, o patriotismo, a experiência do torcedor e o papel social das competições foram transformados a partir daquele momento.